Me apaixonei por você desde aquele fim de tarde em meio a nossa selva de concreto sem vida. Naquele dia de semana, naquele momento parado. Seis horas da tarde. Meio do ano, as vésperas do dia dos namorados. Ironia não? Eu ter sido rendida perto da data tão odiada por mim. Mas ainda assim, nunca precisei de muito para saber que você refletia todos meus desejos mais profundos e mais bonitos. Saído dos meus sonhos. Meu sonho melhorado, e extremamente piorado. Teus traços desenhados pelas mãos de um habilidoso escultor, talhado diretamente na carne, sem esboços. O traço definitivo. Tão finos, tão fundos. O mesmo pobre escultor não foi quem traçou tua personalidade, tão cheia de curvas, tão íngreme. Você alegra meu dia, o pinta das mais belas cores. Ou simplesmente o transforma em um cinza chuva, tão triste, tão escuro e tão profundo...
Me dei conta do quão profundo era o que você havia criado em mim, ali na frente daquele portão da minha cor favorita. Você gritava coisas sem nexo ao meu lado, e me sorria ao final de cada frase ridiculamente dita. Eu gostei daquilo. Era tão você.... era tão nós. O inicio de tudo se deu ali, naquele fim de tarde. O crepúsculo. O maior divisor de águas, sentimentos e pessoas que surgiu em minha vida nesse ano. Você me marcou fundo, como se fosse ferro em brasa. Entrou na minha pele, atravessou meus ossos e alcançou minha alma, se imprimindo ali. Você me marca cada vez mais fundo, não deixa criar a menor quantidade de plaquetas em cima do meu ferimento, e já me volta, sorrindo aquele teu sorriso lindo, me cortando e me fazendo sofrer com a tua ausência presente. Cada vez que penso que estou em paz, que dessa vez tudo vai se acertar, que não há motivos para ser assombrada de novo... você me surge com esse teu olhar fundo, indecifrável. Passa tuas mãos na minha cintura e cheira meu pescoço, roça de leve tua bochecha na minha, e me faz esquecer o que realmente quer dizer viver para si mesmo. Não quero viver sem você cada vez que você me toca, me olha. Quero te prender e te manter comigo, eternamente.
Tenho vontade de te amarrar com laço e fita, embrulhar teu corpo dentro de um papel de presente, te mandar pra mim. Um amor inteiro, na integra. Com tudo para ser completo, nada de retalhos, farelos e migalhas. Te desembrulhar e colocar numa redoma de vidro, só eu te acesso, só eu te toco. Só meu.
Talvez eu precise parar de sonhar com você, amores impossíveis e imperfeitos saturam a sanidade depois de um período lotado deles. Mas... eu não quero te largar, eu não suportaria de deixar ir. Você é moldado para mim, ou isso é o que parece. Penso em te encontrar por aí, numa cafeteria ou numa banca de jornal numa esquina qualquer. Paro em todos os lugares, outdoors, placas, até a faixa de pedestres me olha com esse teu olhar instigante. Ainda alimento a esperança de que um dia você vai se dar conta de tudo, e correrá para mim. Me pegará desprevenida, surgirá na minha vida quando eu estiver no meio de um chocolate quente com vodka, para ajudar a afastar o frio cortante. Frio interno, frio externo. Competição, não há como saber qual lugar fica mais gelado. Meu peito com um coração de gelo, ou o mundo com um vento gelado. E no meio de uma tarde dessas, cinza, você vai me surgir. Sorrindo e correndo, esbaforido. Olhará nos meus olhos e nada dirá, porque não preciso ouvir sua voz. Seus olhos me dizem tudo o que preciso e que desejo ouvir da tua boca macia. Vai segurar minha nuca e nada, nada, nada lhe fará desviar o olhar dos meus olhos de cor indefinida. Eu te quero, eu te preciso, eu te detesto, eu te odeio, eu te amo.
Talvez se você não fosse tão orgulhoso, e se eu não fosse tão histérica nós não teríamos ido. Se eu não fosse tão cismada e você tão alheio nós não teríamos nem começado. Se eu não fosse tão destemida e você tão acomodado, nós não teríamos nem acontecido. Se eu não fosse tão insistente e você tão hormonal, não teríamos nem permanecido. Não consigo me lembrar de nenhuma crise minha que não tenha sido causada pela sua loucura. E não consigo lembrar de nenhuma loucura sua que não tenha sido causada pelas minhas crises. E talvez se eu não fosse tão descontrolada e cismada, você ainda estaria comigo. Eu não te acho acomodado, hormonal e nem louco. Um pouco orgulhoso. E esse teu orgulho todo drena todas minhas teorias sobre teu comportamento tão instável... Sobre sua frieza tão inexplicável, e seu grito ecoando à 30 metros de distância de mim, acompanhado do sorriso aberto. Esse seu maldito sorriso bonito. Eu detesto ele. Detesto todo o efeito que ele tem... O efeito insano de me tirar toda a sensação das minhas pernas, de me dar borboletas gigantes no estômago, de me fazer esquecer como se respira. Eu nunca tinha percebido o que é realmente se apaixonar. Gostei de uns tantos garotos finos por aí, uns tantos médios, uns tantos que não marcaram. Já conheci mesmo muita gente, gostei de um bom tanto deles.... Mas você... ahh, você! Por que logo você? Tanta gente para mexer comigo feito uma colher mexe uma xícara de chocolate quente, com um gole grande de vodca... Tanta gente. E eu caí logo em você. Cai feito boba mesmo. Sem nem pestanejar. Mas sabe... Eu meio que gosto disso tudo, gosto da confusão que você faz na minha cabeça. Mesmo que doa. Eu sei que eu tenho algo ao que me apegar forte, mesmo que eu caia depois...
Eu quero te salvar,garoto. Quero te proteger, te dar colo. Preciso que você precise de mim, como um coração precisa de sangue. Venoso e arterial. Juntos, formando uma coisa só. Um se fundindo no outro. O outro fundindo no um.
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