Faziam meses que ele não aparecia em lugar algum, e eu já nem esperava. Quando ele resolve sumir, some mesmo. Desaparece sem deixar traços para trás. Desvanece. Essa insanidade dele me deixou acostumada a não esperar mais. Mas ele sempre volta. E voltou outra vez. Já chegou elogiando a foto, "bonita a foto". E depois de vinte e dois meses, eu sabia as palavras. Secas, diretas. "Obrigada." O problema todo, é que ele faz falta. Aquele jeito fétido dele de encarar o mundo, de me encarar, faz falta. Não contive um sincero e receoso "quanto tempo né.". Respondido por um resumo breve da vida dele. Nada mudado no último ano. Continuam as mesmas manias idiotas, os mesmos hábitos nojentos, repulsivos. E ele, mais amargo do que antes. Se é que é possível. Naturalmente, a briga quase estourou inúmeras vezes. Como sempre aconteceu, acontece e vai acontecer enquanto um voltar para a vida do outro esporadicamente. E de repente, eu já havia ocupado o posto destinado à mim, por ele: o de vilã. Sou perversa demais para não ter sido a causadora de todos os problemas da vida dele. Não a pequena e frágil mente que habita abaixo daqueles cabelos constantemente coloridos. Mas ele não se importa, nunca se importou. A lei válida é a dele, desde os princípios dessa relação ridícula. Afinal, eu sou complexada, não? Cheia de traumas incuráveis. Palavras sábias do nosso doce rapaz.
Um continha o outro, irritado. Um fato inovador. Sempre fomos tão fogo e gasolina. Explodindo em ofensas a cada instante. Sabendo onde ferir fundo o outro. Sempre fomos, sempre seremos. Ele é a pior doença de todas. Volta sempre, quando não há mais lembranças. Uma vida totalmente nova, o número do celular deletado da memória, as conversas salvas em algum arquivo tão antiguado quanto a própria vida. Mas volta. Chega com aquele jeito, quase soando arrependido, doce outra vez. Escondendo o veneno debaixo das frases cínicas, tão características do mesmo.
Conversamos por algumas horas, ele sempre retornando o passado, há muito tempo enterrado por mim. "Três anos atrás não mudarão nada, entenda", cansei de repetir. E a insistência ali, marcação acirrada. E então, o tão escutado pedido: outra vez negado. Um não claro, como tantos outros. A ironia, o sarcasmo, a irritação, descaso. A face sem a máscara trabalhada. Só a carniça do animal podre, sem toda a carcaça que recobre o lado podre disso tudo. Dessa história torta, que nunca deveria ter tido início. Mesmo que há mil dias atrás. Um erro na vida, um desvio acidental do destino. E o fim.
"Apesar de tudo, foi bom falar contigo. Vê se tenta não errar tanto. E se cuida." Claro, eu sempre tentei colocar algo útil dentro daquela pele perfurada por tantos pinos. Operações infinitamente falhas. Nenhuma com sucesso. E ouvia dos amigos "ele te escuta, finge que não, mas escuta.". Tolos. Esse é vazio demais para ouvir qualquer coisa senão sua própria voz. Ver sua própria pele, sentir sua própria desgraça. "Passar bem". Seco, reto, duro. Exatamente como eu havia sido, lá no início. Uma guarda minha que nunca deveria ter sido posta para baixo. O jogo termina de igual para igual. Acarretando mais um empate. O último, de tantos, quem sabe. Afinal, a merda toda foi causada pelos dois. Ninguém faz nada sozinho. Nem desgraçar a vida do outro. O fim.
"Pode deixar, querido".
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