quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

É sobre as estrelas.


Eram duros e impassíveis, feito duas esmeraldas. Batiam e voltavam nas minhas duas pupilas cor de mel. Ninguém nem ao menos considerava desviar o olhar, como se fosse algo extremamente necessário em nossa vida. Naquele momento, para você. Em todos os outros, para mim. Meu coração parou no peito quando meu olhar cruzou o teu. Congelando no momento, estagnando no instante. Meu peito parecia picadeiro de circo, meu coração o malabarista sob o teu apito mandão. E eu no picadeiro, só olhando todo o espetáculo. Mas não naquela esquina. Não naquele dia, de algarismos iguais, e no mês de números diferentes. Ninguém falava nada, ninguém esboçava nenhuma reação. Era eu te encarando, e você me observando. Impassíveis. Quase como se gravando aqueles segundos. Quase senti teus olhos rasgando meu rosto, abrindo meu peito com vontade contida, que ganhou vida e saiu no mundo. Gritando. Me senti invadida por ti o resto do dia, quase como se naqueles poucos momentos você tivesse entrado dentro da minha mente e controlasse tudo por ali. Ou dentro da minha alma. Outra vez. Me exaurindo com mais uma brincadeira de pique-e-pega. Onze meses e quatro dias depois. E hoje ainda soube que esteve no nosso lugar. E há pouco. Me perdoe, mas tenho que dizer: era mais belo antes. Ou estava mais belo naquela fatídica noite. Onde tudo aconteceu. Onde tudo começou. E onde tudo se deu fim. Rápido, intenso, forte. Marcante a amaldiçoador. Perseguidora noite das minhas noites sem sono, sem sonho, só com teu fantasma vagueando nos meus pensamentos mais obscuros, mais íntimos, mais secretos. E toda a essência da minha alma querendo te materializar do meu lado, num piscar de olhar, nem que fosse por um momento estúpido e chulo. Mas sentir teu cheiro de novo. Olhar no teus olhos e tocar teu rosto. Como já fiz tantas milhares de vezes. Umas mil imaginárias. E outras mil e duas reais. Sentir teus lábios formando um sorriso, por menor que seja, para mim... não há dinheiro, jóias, preciosidades no mundo que pague isso. Nada vai poder te trazer de volta. Eu estou presa à minha própria fortaleza, com um pulso atado e um pulso livremente vagueante. Um olho em você, e outro na vida. Um no meu gato, e outro em meus peixes. Um querendo vingar do outro. Matando aos poucos. E a idiota apaziguadora aqui, mantendo os ânimos acalmados. Acalmando gato. Acalmando peixe. Me convencendo de que posso acalmar algo nos dias que se correm por aí. Eu ainda me forço a acreditar que ainda há algo salvador nessa história toda, algo pelo qual valha a pena lutar, esfolar os dedos em nós tolos para soltar meus pulsos das amarras estúpidas nas quais eu me prendi. Eu daria a vida para descobrir o que eu penso tanto que pode salvar. Entender o real significado de umas e outras tardes à esmo por aí, de umas poucas noites, na época em que as estrelas sorriam e sussurravam para mim: claras e nítidas, palavras sem significados subjetivos. Suas mãos passando na minha cintura, envolta pelo vestido. Paradas no passador de cinto da minha calça, afagando minhas costas.... E de novo, seu sorriso sorrindo pra mim. Aquele sorriso de lado, misterioso, que eu não entendo. Oblíquo e dissimulado. Meus olhos são oblíquos. São dissimulados. São oblíquos. Até nisso tu me copias... Teu sorriso combina com meu olhar. Tuas manias imaturas combinam com as minhas. Sabe bem de tudo. Sabe o tamanho do teu reflexo em mim, e o tamanho do meu reflexo em ti. Foram inevitáveis os pensamentos de que outra havia ido parar em teus braços no nosso canto. Mas algo diz, no fundo do meu peito estraçalhado pelas duas mãos firmes, que eu bati forte na tua cabeça nesses dias. Algo diz que não tenho passado batida por ti. Não sabes o quanto isso machuca. Dói fundo. Preferia passar batido e fingir, com reciprocidade, que não te conheço. Parar com esses olhares duros e partidores de corações, que deixam a alma aflita, querendo sair do corpo. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

e.m.a

"amiga, engraçada, feliz, companheira, conselheira, linda, e histérica". Era essa a definição que você dava pra mim. Ainda lembra? É, eu lembro. E sim, por mais incrível que seja, isso ainda dói fundo na minha alma. Já tem mais de dois anos desde que você me disse isso. E eu ainda não tirei da cabeça. Por isso e tantas outras coisas com uma suposta importância banal é que ainda me prendem ao que nós éramos. Me prendem em quem você costumava ser. Você tinha um brilho próprio, e meu mundo ficava, ainda, mais azul do ele já era. E você não esqueceu, nunca, nem por um minuto idiota que essa era minha cor favorita. E agora, eu lembrei de quando você veio, saltitante e com um enorme sorriso no rosto, na minha direção. Na direção da pessoa mais importante da sua vida, me contando que havia escolhido uma das cores. Era azul. A minha cor. E escolheu porque sabia que eu iria adorar. 
É bizarro ver o quanto as pessoas mudam de um ano para o outro, ver o quanto as importâncias diminuem. E quantas cicatrizes profundas marcam nossa alma. Mas eu ainda penso que o mais bizarro é que você nunca realmente se vai. Nunca se foi. Nós apenas tiramos férias da nossa relação complicada, e completa de ódio e de amor. Completamente lotada da gente. Sim, eu ainda acredito que você se importa. Mas se importa em algum lugar muito distante na sua alma, onde quem você costumava ser ainda existe. Não esse ser no qual você se tornou. Ainda mais agora.. É sempre nessa época que você se torna ainda mais presente pra mim, ainda que esteja terrivelmente distante. Mas nessa época do ano, todo e qualquer tipo de lembrança nossa salta em cima de mim, e me afogo nelas. Mesmo sem a minha prévia permissão para que essa invasão cruel aconteça. Ela simplesmente... volta. Todos os anos. Talvez seja simplesmente por que não exista um simples ano no qual nós não brigamos, ou nos odiamos por algum espaço de tempo, ainda que curto, ainda que longo. Mas dessa vez, a vida pesou na minha. E fez essa discórdia parecer uma morte na família. Sim. Você sempre foi família. E sempre vai ser. Família, você me dizia por tantas e tantas vezes, a gente não escolhe. E é verdade.
Mas tem doído. A minha dor dói, meu ódio dói, minha mágoa dói. E todos dizendo que nada disso compensa, já que eu sempre soube o que me esperava em algum momento. E talvez essa seja a pior parte de todas: saber o que me esperava, sempre. Mas eu sempre te conheci. E ninguém nos conhece tão bem quanto a gente. O que soa até mesmo bizarro, porque ainda hoje... eu sei que não acabou. É que mesmo com todas as nossas idiotices espalhadas por esses caminhos árduos, e traçados pelos nossos andares ébrios, nossos erros nos trouxeram aonde chegamos. E ainda vamos longe. Afinal, eu ainda lembro de como você assina as melhores coisas que eu já ganhei de você: EMA.