domingo, 14 de outubro de 2012

Imutavelmente adorável


E sei lá... meio que fez sentido essa sua paixão por coisas pela metade, depois de hoje. Eu entendi o charme que essa vida toda tem. O que você vê nisso. E logo que eu entendi, eu quis virar pro lado e falar com você. Te contar, ouvir você rindo da minha cara, tirando uma da minha ingenuidade no assunto e me explicando tudo. Calmo, daquele teu jeito que finge que ficou irritado com a minha lerdeza mas que nunca deixa de ser calmo. Mas você não tava do meu lado. Você não tá do meu lado já tem muitos meses. E parece que depois que você saiu, saiu uma parte de mim também. Eu fiquei pela metade. Assim como essas coisas que você gosta, tão soltas, tão frágeis por aí. Sei lá... me peguei pensando se assim você ia gostar mais de mim. Faz tempo que você vem gostando menos de mim. Eu sei, você sabe. Todo mundo sabe disso. É que hoje me deu uma saudade grande daquela noite em que você tava comigo, no sofá. Do meu lado. E eu tava no seu pé, por que queria que você me mostrasse alguma coisa idiota. E você foi ficando irritado. Até que me mostrou uma coisinha de nada, quase sem significado. Lembra disso? Provavelmente, não. Você sempre disse que a minha memória que era boa, e não a sua. Mentira né. Você vive implicando comigo, dizendo que lembra de mais coisa do que eu. Mesmo sabendo que é mentira. Porque tudo pra gente é mentira. As verdades a gente não conta, a gente esconde. Nossa verdade é subentendida, fica só pra gente. Assim como o que a gente guarda só pra nós dois. É que é raro, entende? Claro que entende. Você entende tudo o que é meu, e que ninguém mais entende. Mas aí você vai me mostrando milhares de coisas banais, até me mostrar uma realmente marcante. Uma que é você, ali, traduzido em cada detalhe. Em cada parte. E depois você pede uma coisa minha. E eu te mostro a minha alma traduzida. E você vem me dando palpite, me mostra onde cada mudança deve ocorrer... E me muda, assim, discretamente. Nós dois somos assim, eu sou assim, você é assim. Discretos quando o assunto é a gente. Vindo de nós dois, ninguém duvida de nada. Nem do estranho laço que se formou entre nós dois.
Mas aí você volta. Assim, com aquele teu jeito de quem sabe bem porque tá voltando, e que sabe bem quando. A a conversa flui como se nada tivesse mudado. Você veio logo rindo da minha cara, tirando uma da minha ingenuidade, e me explicando tudo. Com a calma que eu sei que você tem só comigo. A calma que eu tenho contigo quando mistura a tristeza de você já não estar do meu lado há muitos meses. Eu quase nem lembro mais do tom da sua voz. Seu cheiro minha memoria não recorda. Mas eu lembro do seu jeito. Isso não muda. Acho que é por isso que eu gosto tanto da gente.
A gente não muda. Nunca.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Baía de letras.


Vai. Respira fundo, fecha os olhos e se joga. Deixa a emoção entrar de novo na tua alma. Mais um suspiro pesado, e o barulho da caneta seco batendo contra a mesa, “droga, acho que esqueci como se escreve”. E aí eu percebo que posso perder tudo, menos a magia da minha mão deslizando por sobre o papel, rabiscando frases harmônicas feitas na hora, sem formação prévia. É que finalmente entendi que coração de pedra e alma de gelo não combinam comigo. O meu jeito é sentir o sangue pulsando nas veias, a cabeça rodando por causa de uma avalanche de pensamentos, sentimentos, emoções. Mergulhar de cabeça num poço raso, deixando meu crânio rachar... E dar espaço ao sorriso que se forma em meu rosto a cada nova queda. Ser incoerente é sinônimo de ser feliz.
Só escrevo na queda. Ou quando assumo minha natureza emotiva. As palavras somem, correm desgovernadas, cada vez que eu esqueço de onde vim. É quase como se eu fugisse da minha essência. E os prejuízos são, no mínimo, enormes. A cada fuga, há um novo rombo na minha essência. Futuramente cicatrizado. Eternamente marcado.
Na verdade, eu cansei de fugir. Existe uma necessidade enorme de entrega para as coisas novas, habitando meu corpo. Preciso ser imprudente, impulsiva... Feliz.
E achei isso de novo. Um outro porto não conhecido no qual eu ainda vou tentar (pela milésima vez) atracar meu navio de guerra, cair na baía com um barco tímido... E quem sabe, finalmente, lançar âncora na praia dessa ilha de sorrisos de lado, com uma falsa ideia de deboche.
As lendas rezam que há um vulcão no coração dessa ilha. Um vulcão cheio de segredos. Fora de atividade há meses. Esperando a pessoa certa para explorá-lo e causar a explosão tão aguardada. E é para ali que eu vou, para o coração do vulcão de olhos de uma cor segregada, misteriosa. Lutar contra todas as barreiras de guarda, algumas fortemente armadas. Procurar atalhos. Abrir matas. Desbravar novas trilhas. E, quem sabe, poder alcançar a fruta rara, de sabor afrodisíaco que vive acima do vulcão, e talvez provar o efeito místico que ela causa nas pessoas. E ainda mais místico quando a vítima inocente carrega meu nome e meu sobrenome. Talvez seja letal. Uma mordida é morte rápida, feito tiro. Talvez seja veneno lento, que mata aos poucos quem morde a fruta suculenta.
Ou talvez cause mal algum. A fruta, quem sabe?, eleva o espírito da gente até um patamar inigualável. Transformando de dentro pra fora. Alma, mente, coração, corpo. Espírito e matéria trabalhando em perfeita harmonia.
Dentre esses tantos fatos incertos, há uma única certeza sobre essa fruta: covardes não a comem. Se alguém chegou ao vulcão, era proprietário de uma coragem extrema. A maior virtude que alguém pode ter. Coragem em desbravar algo desconhecido. Não adianta de nada consultar precedentes: os eventos nunca se repetem. Um raio não cai duas vezes num mesmo lugar. Porém, coragem mesmo tem quem come a fruta e desperta o coração do vulcão. Resistente já há meses. Anos, rezam alguns anciões tribais. Mas, quem diz a verdade? Quem garante que não houve nenhuma pequena, e imperceptível, explosão? O núcleo pode narrar esse conto sem fadas. Nós, não. Tão menos os covardes.
Mas eu quero ser capaz de atiçar a lava, sentir o magma me tragando pra dentro de um calor infernal, dantesco. Quero sentir o calor do qual eu sempre fui privada. Do qual eu sempre me privei.
Quero poder voltar a cair de montes altíssimos, me afogar em mares turbulentos. Achar que a vida se esvaiu da minha alma.... E então sentir uma nova lufada de oxigênio entrar nos meus pulmões. E abrir os olhos, deslumbrada com as luzes já infinitamente vistas, mas cada vez mais lindas.
E renascer. A cada novo ano. Passar por tantos aniversários fúnebres, tantas vezes ao longo do ano. Celebrar algumas mortes e prantear outras. Mas, em hipótese alguma, deixar que os fantasmas vivos-não-mortos voltem a me assombrar. E poder voltar a correr a caneta, tranquilamente, pela folha pálida, vendo as curvas alheias darem formas às letras, formando palavras.
E é assim que eu venho seguindo e sempre seguirei. Com uma ou outra parada em algum hotel, para ver se essa história de 100% racionalidade me atrai... Testando para ver se minha estrada de emoções me cansou. Às vezes, fico algum tempo mais longo. Mas sempre volto à rodovia. Essa vida de indecisão, queda, impulsos, e muitos, mas muitos, sentimentos, é o que me reflete. Por isso, fujo da hospedaria com quase nada na bagagem. E na estrada eu me reconstruo, para perder tudo depois. E é assim que eu vou. Vivo para amar. Amo para viver. Escrever, com todas as nuances periódicas, é o que melhor me define. É o que me representa. É minha essência. Começo. Meio. Fim.
Amo para escrever.
Escrevo para amar.