E sei lá... meio que
fez sentido essa sua paixão por coisas pela metade, depois de hoje.
Eu entendi o charme que essa vida toda tem. O que você vê nisso. E
logo que eu entendi, eu quis virar pro lado e falar com você. Te
contar, ouvir você rindo da minha cara, tirando uma da minha
ingenuidade no assunto e me explicando tudo. Calmo, daquele teu jeito
que finge que ficou irritado com a minha lerdeza mas que nunca deixa
de ser calmo. Mas você não tava do meu lado. Você não tá do meu
lado já tem muitos meses. E parece que depois que você saiu, saiu
uma parte de mim também. Eu fiquei pela metade. Assim como essas
coisas que você gosta, tão soltas, tão frágeis por aí. Sei lá...
me peguei pensando se assim você ia gostar mais de mim. Faz tempo
que você vem gostando menos de mim. Eu sei, você sabe. Todo mundo
sabe disso. É que hoje me deu uma saudade grande daquela noite em
que você tava comigo, no sofá. Do meu lado. E eu tava no seu pé,
por que queria que você me mostrasse alguma coisa idiota. E você
foi ficando irritado. Até que me mostrou uma coisinha de nada, quase
sem significado. Lembra disso? Provavelmente, não. Você sempre
disse que a minha memória que era boa, e não a sua. Mentira né.
Você vive implicando comigo, dizendo que lembra de mais coisa do que
eu. Mesmo sabendo que é mentira. Porque tudo pra gente é mentira.
As verdades a gente não conta, a gente esconde. Nossa verdade é
subentendida, fica só pra gente. Assim como o que a gente guarda só
pra nós dois. É que é raro, entende? Claro que entende. Você
entende tudo o que é meu, e que ninguém mais entende. Mas aí você
vai me mostrando milhares de coisas banais, até me mostrar uma
realmente marcante. Uma que é você, ali, traduzido em cada detalhe.
Em cada parte. E depois você pede uma coisa minha. E eu te mostro a
minha alma traduzida. E você vem me dando palpite, me mostra onde
cada mudança deve ocorrer... E me muda, assim, discretamente. Nós
dois somos assim, eu sou assim, você é assim. Discretos quando o
assunto é a gente. Vindo de nós dois, ninguém duvida de nada. Nem
do estranho laço que se formou entre nós dois.
Mas aí você volta.
Assim, com aquele teu jeito de quem sabe bem porque tá voltando, e
que sabe bem quando. A a conversa flui como se nada tivesse mudado.
Você veio logo rindo da minha cara, tirando uma da minha
ingenuidade, e me explicando tudo. Com a calma que eu sei que você
tem só comigo. A calma que eu tenho contigo quando mistura a
tristeza de você já não estar do meu lado há muitos meses. Eu
quase nem lembro mais do tom da sua voz. Seu cheiro minha memoria não
recorda. Mas eu lembro do seu jeito. Isso não muda. Acho que é por
isso que eu gosto tanto da gente.
A gente não muda.
Nunca.
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