Vai. Respira fundo,
fecha os olhos e se joga. Deixa a emoção entrar de novo na tua
alma. Mais um suspiro pesado, e o barulho da caneta seco batendo contra a
mesa, “droga, acho que esqueci como se escreve”. E aí eu percebo
que posso perder tudo, menos a magia da minha mão deslizando por
sobre o papel, rabiscando frases harmônicas feitas na hora, sem
formação prévia. É que finalmente entendi que coração de pedra
e alma de gelo não combinam comigo. O meu jeito é sentir o sangue
pulsando nas veias, a cabeça rodando por causa de uma avalanche de
pensamentos, sentimentos, emoções. Mergulhar de cabeça num poço
raso, deixando meu crânio rachar... E dar espaço ao sorriso que se
forma em meu rosto a cada nova queda. Ser incoerente é sinônimo de
ser feliz.
Só escrevo na queda.
Ou quando assumo minha natureza emotiva. As palavras somem, correm
desgovernadas, cada vez que eu esqueço de onde vim. É quase como se
eu fugisse da minha essência. E os prejuízos são, no mínimo,
enormes. A cada fuga, há um novo rombo na minha essência.
Futuramente cicatrizado. Eternamente marcado.
Na verdade, eu cansei
de fugir. Existe uma necessidade enorme de entrega para as coisas
novas, habitando meu corpo. Preciso ser imprudente, impulsiva...
Feliz.
E achei isso de novo.
Um outro porto não conhecido no qual eu ainda vou tentar (pela
milésima vez) atracar meu navio de guerra, cair na baía com um barco
tímido... E quem sabe, finalmente, lançar âncora na praia dessa
ilha de sorrisos de lado, com uma falsa ideia de deboche.
As lendas rezam que há
um vulcão no coração dessa ilha. Um vulcão cheio de segredos.
Fora de atividade há meses. Esperando a pessoa certa para explorá-lo
e causar a explosão tão aguardada. E é para ali que eu vou, para o
coração do vulcão de olhos de uma cor segregada, misteriosa. Lutar
contra todas as barreiras de guarda, algumas fortemente armadas.
Procurar atalhos. Abrir matas. Desbravar novas trilhas. E, quem sabe,
poder alcançar a fruta rara, de sabor afrodisíaco que vive acima do
vulcão, e talvez provar o efeito místico que ela causa nas pessoas.
E ainda mais místico quando a vítima inocente carrega meu nome e
meu sobrenome. Talvez seja letal. Uma mordida é morte rápida, feito
tiro. Talvez seja veneno lento, que mata aos poucos quem morde a
fruta suculenta.
Ou talvez cause mal
algum. A fruta, quem sabe?, eleva o espírito da gente até um
patamar inigualável. Transformando de dentro pra fora. Alma, mente,
coração, corpo. Espírito e matéria trabalhando em perfeita
harmonia.
Dentre esses tantos
fatos incertos, há uma única certeza sobre essa fruta: covardes não
a comem. Se alguém chegou ao vulcão, era proprietário de uma
coragem extrema. A maior virtude que alguém pode ter. Coragem em
desbravar algo desconhecido. Não adianta de nada consultar
precedentes: os eventos nunca se repetem. Um raio não cai duas vezes
num mesmo lugar. Porém, coragem mesmo tem quem come a fruta e
desperta o coração do vulcão. Resistente já há meses. Anos,
rezam alguns anciões tribais. Mas, quem diz a verdade? Quem garante
que não houve nenhuma pequena, e imperceptível, explosão? O núcleo
pode narrar esse conto sem fadas. Nós, não. Tão menos os covardes.
Mas eu quero ser capaz
de atiçar a lava, sentir o magma me tragando pra dentro de um calor
infernal, dantesco. Quero sentir o calor do qual eu sempre fui
privada. Do qual eu sempre me privei.
Quero poder voltar a
cair de montes altíssimos, me afogar em mares turbulentos. Achar que
a vida se esvaiu da minha alma.... E então sentir uma nova lufada de
oxigênio entrar nos meus pulmões. E abrir os olhos, deslumbrada com
as luzes já infinitamente vistas, mas cada vez mais lindas.
E renascer. A cada novo
ano. Passar por tantos aniversários fúnebres, tantas vezes ao longo
do ano. Celebrar algumas mortes e prantear outras. Mas, em hipótese
alguma, deixar que os fantasmas vivos-não-mortos voltem a me
assombrar. E poder voltar a correr a caneta, tranquilamente, pela
folha pálida, vendo as curvas alheias darem formas às letras,
formando palavras.
E é assim que eu venho
seguindo e sempre seguirei. Com uma ou outra parada em algum hotel,
para ver se essa história de 100% racionalidade me atrai... Testando
para ver se minha estrada de emoções me cansou. Às vezes, fico
algum tempo mais longo. Mas sempre volto à rodovia. Essa vida de
indecisão, queda, impulsos, e muitos, mas muitos, sentimentos, é o
que me reflete. Por isso, fujo da hospedaria com quase nada na
bagagem. E na estrada eu me reconstruo, para perder tudo depois. E é
assim que eu vou. Vivo para amar. Amo para viver. Escrever, com todas
as nuances periódicas, é o que melhor me define. É o que me
representa. É minha essência. Começo. Meio. Fim.
Amo para escrever.
Escrevo para amar.
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