Descobri que ando muito sozinha. E descobri também que isso não é tão confortável quanto eu pensava. Descobri isso agora, na hora do jantar. Eu e a minha pizza. Só nós duas na cozinha toda branca. Cozinha agora, tão triste, mas que tantas vezes já foi lotada das risadas dos meus amigos, das pessoas que eu realmente gosto. Ando tão só, tão sozinha... tão só eu e eu mesma. Cansa viu? Nem sempre levar uma vida assim, tão... independente, é legal. Machuca, machuca muito. Eu encarava aquela pizza com cinco pedaços restantes de oito. E ela me encarava. A calabresa apimentada me encarava, as azeitonas pareciam olhos me julgando. Me julgavam por repelir tanta gente, por mandar embora tanta gente.
Eu andava bem, juro que andava. Mas o muro cai depois de um tempo. A liga já não anda tão fortalecida quanto antes. O vento bate, a água ataca, as pessoas batem.... E ele vai enfraquecendo. E tem hora, que ele cai. Cai sim, não adianta fugir, negar, mentir, evitar. Ele VAI cair, e quanto isso acontecer, não vai ter nada que você possa fazer contra. Teu muro vai cair em cima de você. E as coisas vão dar errado. A ordem vai ser chorar, reclamar, gritar, fazer voz-de-patricinha-de-filme-hollywoodiano-de-mil-novecentos-e-bolinha, bater o pé, chorar, chorar, chorar.
Coloquei um pedaço de pizza de calabresa na boca. A pimenta escorreu, queimando a minha língua tão machucada, com tantos cortes abertos, causados por atitudes impensadas, tolas, fúteis e adolescentescas. Lembrei da última vez que comi aquela pizza. A lembrança sorriu, mas o coração chorou. Chorou fundo, doído, doído. Até a alma entristeceu com o choro. A cozinha ficou menos branca. Meu cachorro calou. Meus dedos soltaram o garfo, e a calabresa ralada se abriu no prato. E ali ficou, ainda me encarando. Não chorei. Acho que tudo isso andou me fortalecendo. Não que não doa, pois dói sim. E como dói. Lembrei daquelas quatro pessoas sentadas em volta da mesa, comendo aquela mesma pizza, rindo de tudo, rindo de nada. Estávamos tão feliz naquela noite... Tão felizes.
Até meus amigos andam me abandonado. Me esquecendo, assim sabe? Devagarinho, devagarinho, mas andam. Já quase não tenho ninguém para ligar de madrugada. Se é que tenho alguém. Ando tão sozinha, tão eu comigo. Quero meu sorriso de volta, meus olhos secos e meu riso escancarado. Quem foi que roubou minha alegria?
A poesia oculta em uma pizza é enorme. Ao todo, são oito, doze ou dezesseis pedaços. A pizza nunca está sozinha. Ao contrário de nós. Bichos pensantes, com duas pernas, dois braços, mãos e pés. Repelimos as pessoas de perto de nós. Cansamos da mesma situação. Nos fingimos de fortes. Mas aí, ao pedir uma pizza, o muro vem abaixo. É tudo culpa da pizza.
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