quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ela estava de preto. Confundiria-se com a noite, se fosse noite. Mas não. O sol sorria aquele sorriso amarelo e ardente do alto daquele céu azul anil. Os cabelos castanhos caiam até um pouco abaixo dos seus ombros, brancos. Nada a faria mais vulnerável naquele dia do que toda a situação. Ela estava enfraquecida, azedando aos poucos.
Ela sorria um sorriso morto, já não possuía tanto brilho como possuíra algum tempo antes. Acho que isso é o que acontece com quem se joga de tantos precipícios: azeda, estraga. E não havia outra forma de isso não acontecer a ela. Ela é humana, e algum dia já teve sentimentos. Em algum passado remoto, os sentimentos eram bonitos, tão brilhantes quanto as estrelas. Hoje, uma caverna tem mais luz do que seu  coração. ''Está morto'', ela não cansava de repetir. Repetia isso para todos, inclusive para ela mesma, na esperança de fazê-la acreditar no impossível, no inacreditável, no inalcançável. Mas, isso é característico da espécia humana: ir atrás da dor. Pessoas correm atrás do que vão fazê-las chorar por um longo período, em troca de uma noite, um dia, uma hora de felicidade. Felicidade superficial, falsa, enganosa. Um sorriso duro nos lábios vermelhos escuros,  lágrimas secas nos olhos marcados fortemente de preto.
Levantou-se da cadeira e foi até o espelho. Olhou fundo nos seus próprios olhos, e tocou seu rosto. Sentindo cada uma das marcas fundas nele. Abriu a gaveta, alcançou a maquiagem., destampou o lápis e reforçou o traço nos olhos. Lembrou de lhe dizerem sempre para não usar cores fortes, nada de preto nos olhos, cores fortes nos lábios. Aquele era outro sintoma, a quantidade de gente querendo controla-la, e não havia nada que ela odiasse mais do que controle. Nunca dera ouvido aos comentários sobre cores fortes. E passava, todos os dias. Era seu gosto, seu jeito. Porque mudá-lo? ''Não fica bom, desbota'', ela já estava desbotada havia muito baby, nada mais poderia lhe tirar a cor. Forçou ainda mais o lápis, e mais tarde, forçaria mais ainda o batom. Não desgastaria. Ela gostava de como aquilo parecia, de como aquilo soava. Gostava da falta de cor no rosto, gostava do escuro. ''Não chore, não chore, não chore.'', não parava de repetir essa frase tão em vão dentro de sua mente perturbada. Criara a ilusão de que poderia se esconder debaixo da maquiagem. ''Quanto mais maquiagem, menos emoções.'', filosofia forçada, perturbada, machucada.
Tocou os lábios, feridos, reforçou também o batom. Escuro, tão escuro quanto seu interior. Nothing special, nothing different, baby. Prendeu os cabelos escuros com um grampo. Olhou seu rosto pela última vez, e sentou-se na cama. Alcançou um sapato alto, alto o suficiente para passar a imagem de superioridade, imagem de indiferença. Calçou um pé de cada vez, com lentidão. Lembrou-se de Cinderella. Fudida a vida inteira, casada com um príncipe, sorriu de canto, um sorriso ácido, irônico não? No final tudo dá certo. Falsidade, mentira, calúnia. Nada dá certo se não é para dar, chega de mentiras. A vida é duro, o mundo é cruel, e ninguém vai te dar chance. Calçou o outro pé, levantou-se. Olhou-se no espelho, ''ótima fantasia'' pensou enquanto dava uma volta em seu eixo para poder se enxergar melhor, ''assim todos pensarão o que eu quero que pensem''. Foi até a prateleira, alcançou seu perfume favorito, Passou um pouco em locais estratégicos. Escolheu brincos, anéis, colares e pulseiras, colocou-os. Olhou-se no espelho. Viu o reflexo da imagem final. E passou pela porta. Pisando forte, coração tremendo, rosto levantado, e cabeça no presente. Passou pela porta e não olhou nunca para trás.

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