quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sentou-se em um bando do jardim escuro e olhou para o céu. Haviam poucos pontos acesos no céu negro, poucas estrelas naquela noite. Encarou aquele pequenos pontos iluminados fracamente por algum tempo, olhava sem se cansar, via desenhos se formando, desenhos, memórias, palavras. Lembrou-se de sua infância, das vezes em que deitara na grama verde e observara as nuvens, observara as estrelas. Lembrou-se também de sua avó, das vezes que ia com ela ao parque não muito longe dali para fazer pique-nique. ''Já fazem oito anos...'', pensou, sua avó já havia partido, já a havia abandonado já havia oito anos. Levou a mão até o pequeno pingente que carregava todos os dias numa gargantilha. Um pequeno coração de ouro branco, trabalhado minunciosamente, com pequeníssimas pedras incrustadas. Suspirou e lembrou-se do infeliz motivo que a levou até ali. Sentiu os olhos se enxerem de lágrimas, e piscou rapidamente por algumas vezes, para espantar as lágrimas inoportunas. Uma tentativa em vão, tola, sem nenhum resultado. Percebeu a luz do celular acendendo, e ouviu o som indicando uma nova mensagem. Lançou o celular para debaixo do banco, sabia quem havia mandando a mensagem, e tinha uma ideia muito clara, muito dolorosa, do que se tratava.
No instante em que o celular tocou o chão, ela perdeu o controle. Seu corpo já não respondia ao seu cérebro, respondia ao seu coração. E naquele momento, a ordem dada foi parar de resistir. Seus joelhos dobraram até tocarem o chão, as mãos foram de encontro ao rosto, cobrindo os olhos, as lágrimas inundaram sua face. Lágrimas grossas, pesadas, carregadas de dor, lágrimas de um choro sem som. Fugira daquele momento o máximo que podia, mas nenhuma fuga é eterna, e o momento final havia chego. Ela estava encurralada, a última parede em um túnel íngreme de um labirinto. Ela já não poderia continuar fugindo de si mesma, não poderia fugir do seu próprio destino, por mais doloroso que fosse. Ela não era boa o suficiente, não era boa o bastante para nada. Lembrava-se disso todas as vezes em que recaía na doença, todas as noites, algumas tardes, e raras manhãs. Lembrava-se disso a cada novo valor que recebia nos estudos. Resultados de tardes de dedicação, trabalhado duro convertido em nada. Lembrava-se em todos os instantes, esse pensamento não a deixava em paz. Perturbava-a até mesmo em seus sonhos mais bonitos, não há remédio algum que a cure dessa doença, desse problema. Não é doença do corpo, é doença da alma. Não há morfina alguma que cesse a dor que ela sente, a dor cortante de dentro da sua alma, dor que vem de dentro para fora.
Ela não era boa o suficiente para a vida, nunca seria o destaque. Não nascera para viver nos holofotes, e sim, nos bastidores. O mais longe possível da luz, o mais perto da sombra, longe da atenção do mundo. Não era boa para ter sucesso, não era boa para ser o sucesso.
Não poderia lutar contra isso com tanta força, existem coisas pré-definidas na vida, e não há maneira alguma de mudá-las. Mas ela gostaria de que as coisas fossem diferentes, demorou para aceitar isso. Mas a vida é dura com quem não nasce com talento para algo, e pior ainda com quem não nasce para ser boa. Ela queria ser boa, realmente queria.  E ela vai até o fim para conseguir isso.
No meio de todo o pranto, de toda a dor, a lua reapareceu no céu. Gorda e brilhante como sempre seria. Lua Nova. Uma parte na sombra, uma parte na luz. Saindo da sombra indo para a luz, ou vice-versa. Igual a ela naquele momento, transição de uma coisa para a outra. Olhou novamente para o céu, levantou-se, limpou as roupas, secou as lágrimas. Abaixou-se para pegar o celular, respirou fundo e ao abriu. As mãos estavam trêmulas e os pensamentos mais bagunçados do que de costume. O conteúdo a surpreendeu, a última coisa que ela esperava naquele momento. Mas a melhor. O firmamento da transição sombra-luz. Final de uma história, começo de outra. Coisa tão banalmente essencial, fazer o que.

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