Cansei de tentar insistir numa história que não terá nenhum futuro, insisti por um tempo bastante longo. Fui contra o que todos me diziam, não acreditava no que via ao meu lado, não podia acreditar. Eu não queria acreditar.
A verdade é que eu nunca quis desistir de uma coisa que procurei a vida toda, desistir de uma coisa que eu sabia no fundo da minha alma, que me faria um bem enorme se eu tivesse nos meus braços. Quando você procura por algo durante muito tempo, você encontra, mas essa tal coisa não é destinada para você. A felicidade não é uma coisa criada para você ter. A vida gosta de aprontar coisas assim comigo, me apresenta um desejo muito além do meu alcance, algo que eu sempre sonhei. Me faz sonhar com isso todas as noites, mas nunca me deixa chegar perto, me firo de propósito, sei que não conseguirei alcançar. E todas as vezes em que eu caia nessa velha história, eu me afundava cada vez mais, não me permitia agarrar a corrente que me levaria ao topo outra vez, eu não queria. já estava profundamente acostumada com a dor de ser largada, esquecida, abandonada dentro de um poço fundo, no lugar mais escuro do mundo. Lá, do fundo, as estrelas já não eram visíveis, nada fazia sentido. Nada faz sentido quando você já não tem mais o que perder, suas fichas estão acabadas, e ninguém mais acredita em uma palavra que sai de sua boca amargurada.
No fundo, a vida já não tem sentido, não há com o que sonhar, você não pode se permitir sonhar quando não há nenhuma chance de melhora. Depois de um tempo morrendo aos poucos, as coisas mudam. Algo é necessário para que não exista a loucura completamente profunda e irremediável, e nesse momento, você sonha. Volta ao passado, relembra coisas que nunca deveriam ser tiradas de dentro da caixa escura, trancada e jogada no fundo da memória. As feridas são cutucadas, reabertas com toda a força possível, cada lembrança que fora um dia feliz e que hoje é dolorosa é invocada, vozes, toques, suspiros... tudo isso é tão concreto que é possível até sentir o cheiro. Você sucumbe, cai na tentação de querer subir novamente, mesmo sabendo que irá voltar ao fundo quando menos esperar. Seus joelhos lhe traem, e tudo o que você sente é o sangue escorrendo no chão íngreme, cheio de falhas e coisas cortantes. Leva as mãos ao rosto, e sente as lágrimas caindo sem pedir permissão. Tenta dormir, fugir um pouco da tortura induzida, mas não pode, sua consciência é cruel demais para lhe permitir fugir disso. As lembranças ficam cada vez mais nítidas, e não há mais o que fazer para lutar contra, só abaixar a cabeça e mergulhar na dor. Sem se preocupar em voltar para a superfície,
O tempo vai passar, e antes que você se dê conta, nem se lembrará direito do que houve naquela noite, tanto tempo atrás, sob a meia luz. Nada mais fará sentido, não importará. A luz do sol existe outra vez. Está curada, não há ferida aberta. Mas o mundo não é bonito, e antes que toda a liberdade possa ser curtida de uma forma decente, algo lhe leva de volta. Ele ressurgiu, faz travar seu corpo inteiro. Na sua cabeça, só há aquele filme ferino, cheio de lembranças, memórias e sonhos. As mãos nas suas costas, o cheiro no teu pescoço.... Você caí de novo, caí fundo. Em um piscar de olhos, voltou ao fundo, não sabe como sair de lá, nunca havia sofrido uma queda tão brusca, tão de repente. A voz recentemente escutada, ainda ecoa nos pensamentos, o olhar ainda não para de lhe encarar. E você eu sucumbo outra vez, desisto de tentar desistir. Não há como parar de sonhar com uma vida perfeita, ou medíocre. Nada importa, desde que o sonho esteja comigo, meus sonhos mais bonitos personificados. A voz não se calava, a cabeça gira sem parar. E num passe de mágica, as coisas passam a fazer sentido. A subida não é permitida nesse mundo, no meu mundo. Eu devia viver no fundo, aceitar as lembranças, sonhar com meu pequeno príncipe me jogando algo e me levando de volta para cima, ao seu lado. Me fazendo perder o medo de perder sua voz.... A voz é algo que eu não posso viver sem, a voz, o riso... Meu maior temor era ter perdido a lembrança de como soava, ter esquecido o timbre exato, esquecido como ela soa quando ele sorri. Eu tentara fugir das lembranças, tentei o espantar de meus pensamentos por tempo demais, com todas as minhas forças. Ele não poderia ter voltado, eu não podia pensar nele. Mas eu pensava, eu lembrava, eu sonhava. Doía, mas eu fugia da dor intensa por dias, melhorei com o tempo. Longe, eu não sentia nada, era toda torpor, não havia nada que me fizesse ascender, ou decair. Eu estava planando no purgatório. Mas no momento em que reencontrei aqueles olhos, desejei a dor. Lutei contra tudo o que mais preservara, o que levantara em volta da dor, destruí fortalezas imensas dentro da minha mente, dentro do meu peito. Eu queria a dor. A dor era a única prova de que nada daquilo que me assombrava nas minhas noites mais frias e solitárias de que ele existira na minha vida. E que continuava existindo, mesmo longe. Eu já estava exausta de tentar me proibir de lembrar de tudo, e eu não poderia esquecer.
Não fazia ideia de por quanto tempo eu continuaria infeliz, se era uma coisa temporária - como todos me diziam incansavelmente - ou se duraria para sempre. Talvez, se fosse temporário, eu conseguiria lembrar tranquilamente desse tempo, sem sofrer tanto, ou até mesmo, sem sofrer. Talvez, se tornaria uma lembrança neutra, algo que marcou na época, mas que no futuro, não me afete.
Eu não podia continuar lutando contra meu destino, a única coisa que me fora reservada era a profunda solidão, o abandono completo. E mesmo no fundo, pude voltar a ver as estrelas.
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