segunda-feira, 26 de dezembro de 2011


Tardes cinzentas sempre me fazem refletir sobre a vida. Especialmente essa, uma tarde cinzenta pós natal, logo depois de uma semana completamente banhada a sol e calor. No meio dessa tarde, me peguei repensando em antigos amores, antigas dores, antigos desgostos. Prendendo-me ao passado, tentando reviver memorias mortas. Passei a tarde inteira encarando a tela do notebook. Tão dura, tão brilhante. Assentia enquanto a luz fortemente fraca entrava no meu globo ocular e me deixava ainda mais perturbada. Perturbada por causa da crise de sinusite causada pela mudança brusca da temperatura, perturbada por causa da tarde sem cor do lado de fora da janela, perturbada por estar perturbada.
Durante uma das crises em que quase lanço todo o meu sistema respiratório para o nojento mundo externo, me deparei com uma conclusão épica. Eu odeio vazio, odeio não ter com quem sonhar. A sensação de que eu estou caindo, sem ter no que me segurar... dói, dói no fundo da minha alma. Afinal, eu sinto falta de sonhar com alguém, odeio esse vazio. Fechar os olhos quando recosto a cabeça no travesseiro alto, e não ter em quem pensar. Isso dói, isso corta. Rasga a alma, coração e consciência. Ninguém vive de vento, ninguém é feliz sozinho, até mesmo a menor das felicidades depende de alguém. Não ter de quem reclamar, quem abraçar, ou até mesmo com quem brigar, mesmo que seja no mais profundo sono da noite mais fria. Não ter alguém na sua imaginação, é o pior de todos os castigos.
Mas olhe em volta, as pessoas esfriaram, esvaziaram, secaram. Poucos ainda buscam a felicidade no sorriso de um outro alguém. Em pequenos gestos, as pessoas estão morrendo com essa falta de contato mínimo. Nos faltam contatos imediatos, de primeiro, segundo, terceiro, quantos graus existirem! Falta a emoção do olho-no-olho, a sensação das mãos quentes sobre uma cintura fria. Falta rosto de gente pequena enterrada no abraço de gente grande. Falta sonho, sobra realidade. Cadê a magia do mundo? Qual foi a bruxa má que roubou os sorrisos das pessoas? Falta inocência, inconsequência, impulsividade. Falta sorriso sem motivo, e sobra choro com motivo triste. Choro que corta o coração, rasga a alma, e dói a cabeça. Corta, rasga, dói por que o mundo anda cinza, as cores estão morrendo. As pessoas se tornaram independentes umas das outras. Falta sonho antes de dormir. Falta vontade de sonhar, falta gente para com quem sonhar.  Falta gente querendo ser feliz, gente aceitando a felicidade. Falta gente sorrindo.
Nessas tardes cinzas, com a chuva batendo no vidro da janela, o nível de pessoas sorridentes cai de uma forma assustadora, faltam pessoas sonhando, sorrindo, sendo felizes. Nesses dias cinzas, é quando mais preciamos de felicidade. A falta de pessoas assim, nos leva a pequenos atos masoquistas. Reviver o passado, um passado que não deveria ser mais lembrado, nem tirado de dentro do baú da memória. Buscar outros tempos, tempos com pessoas felizes. Um tempo onde eu era feliz pelo simples fato de ter alguém com quem sonhar nas noites frias. Prefiro sofrer com um amor, do que sofrer pela falta dele. 
Esse deveria ser o lema da população, todos teríamos amores sempre, ninguém buscaria memórias dolorosas quando algo acontecesse. Ninguém cometeria meu erro:  quando machucada, buscar antigos para confirmar se ainda posso machucar. Confirmar até onde vai meu maldito poder sobre as pessoas, a minha maldita maldição de corações partidos.
E, admito, ela vai longe.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Olha, presta atenção, eu sei que o mundo tá feio. Eu sei que as coisas tão perdendo todas as cores, até o mais colorido dos cantos anda desbotado. Eu sei que a vida tá triste, e que só passa desgraça no jornal. Eu sei de tudo isso, sei o quanto isso dói, o quanto isso corta no fundo da alma da gente. Mas sabe o que dói mais? Saber que as pessoas andam perdendo a vontade de brotar sorriso nos rostos das outras pessoas. Perdendo a vontade de levantar de manhã e pensar ''hoje eu vou fazer alguém sorrir''. Ou até mesmo, a vontade de se fazer sorrir, um sorriso sincero, bonito e simples. Aquele sorriso que surge quando você passa os dedos, calmamente, pela cabeça de um cachorro e fecha os olhos. Aquele sorriso que surge nos teus lábios de forma inesperada, quando um senhor com cara de avô fofinho sorri para você na rua. As pessoas perderam essa vontade de colorir o mundo de cores bonitas, cores alegres.
E a cada pessoa que desiste de fazer o mundo sorrir, morre um pedacinho dessa vontade, aí dentro do seu peito. É triste né? As pessoas estão perdendo a capacidade de aproveitar as pequenas coisas. Me diz você, tem coisa mais gostosa do que sentir o vento carregando um punhado de folhas, no fim da tarde? Tem coisa melhor que ouvir aquele trecho daquela música, dentro da sua cabeça, quando aquela pessoa se aproxima? Sei que você pensou em uma pessoa e em um trecho especial. Não é difícil, não arranca pedaço. É só ser, fluir, agir. Não pensem. As pessoas pensam muito, o cérebro só comanda o corpo, quem cuida da alma é o coração. Sabe o que vai ser do corpo quando tudo acabar? Comida de verme. A alma prevalece, nem que seja voando por aí, sem rumo. Olhando cuidadosamente cada pessoa pela qual ela zelava quando viva. Mas a alma continua de alguma forma.
Só quero te pedir pra não parar, para não desistir. Não é justo culpar o amor, e perder-se dele por causa de uma experiência ruim. Tem sempre alguém querendo te salvar desse caminho sujo e cheio de corpos vazios e sem rumo. Não é certo lotar sua boca de bocas sem porquê. Não vai para esse lado.. O sorriso ainda pode existir sim, só dá uma chance. Não desista antes de tentar.
Afinal, seu sorriso é responsável por tantos outros. Porque querer que ele morra, ou se transforme em algo infinitamente menos bonito?

sábado, 12 de novembro de 2011

Acendi as luzes e te encontrei ali, escondido no meio de duas cobertas. Só os pés para fora, e a cabeça escondida sob uma delas. Mesmo sem ver, eu sabia qual era o tamanho do seu sorriso. Aquele teu sorriso travesso, de quem apronta mas gosta do que faz.
Cheguei pertinho, na ponta dos pés, toquei de leve seu tronco e te fiz cócegas, delicadamente. Você riu.  Eu sorri com o som da sua risada e descansei minhas mãos nas suas costas, e você jogou longe teu esconderijo de tecido, seus olhos buscaram os meus, meu sorriso se ampliou, assim, involuntariamente.  Você se ajeitou, mas continuou deitado, buscou minha mão esquerda e ficou brincando com ela. Encaixando e desencaixando teus dedos finos nos meus, guardando minha mão dentro da tua... Ficou assim, por quem sabe uma eternidade, ou talvez poucos instantes. Brincando com a minha mão no meio do silêncio feito por nós dois.  O tempo para quando você está por perto, perco toda a minha noção fraca do tic taquear do relógio. De repente, você começou a falar. Dizia coisas doces, e olhava dentro dos meus olhos. ''Eu gosto de você, eu te amo sabe?'' ''Gosto de ficar assim com você, sem fazer nada, só assim, quietos...''. Eu sorria, sorria sem saber o que falar. Queria te dizer que sentia o mesmo, que adorava ficar assim com você. Mas a voz não saia, e eu continuava te sorrindo. Depois de um tempo assim, você foi para a frente, e me jogou no tapete. Foi a minha vez de receber as cócegas a pouco feitas em você. Eu tentava esconder a vontade de rir, mas não há necessidades de máscaras com você. Eu não preciso de disfarces. Eu não tenho vontade de brigar, com você tudo o que eu quero é paz. Quero que você me encontre ao longo de um corredor qualquer, como quem não quer nada, que coloque meus cabelos para trás, levante meu rosto e me beije. Quero encontrar seus olhos por entre o vão de uma porta meio aberta, e sorrir com seu sorriso bobo. Quero seus braços entorno dos meus ombros enquanto o mundo me levanta ou me joga no chão.
Eu sinto que, cada vez que você está por perto, eu só preciso ser eu mesma.
Você não achou ruim, e continuava falando, sem se importar com meus silêncio. Acho que meus olhos te diziam tudo, diziam tudo o que eu não conseguia colocar em palavras. Mas você entendia, eu sentia isso dentro da minha alma. Você sabe. Você entende, percebe.
Talvez seja essa a chave de tudo. Meu silêncio nem tão silencioso assim.
Se você entende, você aceita. E isso basta pra mim.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011


Te quero, te preciso.  Minha mão ainda queima com o toque leve da tua. O sol já se escondia atrás das nuvens, deixando uma iluminação fraca quando reencontrei teus olhos verdes. Os. Seus. Olhos. Verdes. Verdes do mais puro tom, cor da mais pura fruta tropical ainda não descoberta na Amazônia. E no momento em que olhei nos teus olhos, percebi que ali estava tudo o que eu queria. O que eu mais precisava. Você e nada mais.  Talvez uma dose a mais regada de você, a vontade. Talvez isso e somente isso. Mas você que nunca me diz nada, mais uma vez me olha sem nada dizer, se vira e sai andando. Tudo bem, vai bem amor. Mais um tempo sem você do meu lado... Acho que consigo.  Talvez fosse mais fácil se eu não precisasse olhar em teus olhos bonitos todos os dias, se os traços finos do teu rosto não me assombrassem a cada duas horas... Ou mais. Ou menos.  Você sempre tão presente e tão ausente em todos meus dias... Nunca sei o que te puxa para perto de mim. Sonho sempre com você, todas as noites. Você me surge em sonhos, com uma naturalidade insana. Eu sei que dali você não vai sair... Mas nem em sonhos te tenho por perto, e ainda li tu me foge entre os dedos brancos de minhas mãos brancas e finas. E eu tento te agarrar, tento me agarrar ao seu sussurro ao pé do meu ouvido naquela tão longínqua sexta-feira. Tento com tudo o que tenho dentro do meu peito ferido. Incansavelmente. Mas não há o que te mantenha ao leve toque da minha respiração irregular perto de você. Cada vez que você me surge, tão ferino e translúcido, ao vivo e a cores, como num jogo transmitido ao vivo da seleção brasileira em época de Copa de Mundo. Todas as vezes que isso me pega de surpresa, me esqueço de como é respirar. Não há ar para mim se estou longe de você. A vida não me sorri. E cada gesto, cada toque, cada beijo em outros donos de corpos vazios e vagantes pelo mundo... Bom,  tudo tem girado em volta de ti. Gira na minha irremediável tentativa de te arrancar de dentro do meu peito. Não sei se quero te tirar de dentro de mim... Sei que quero te deixar aqui dentro por longos anos, regados dos mais belos sorriso, dos mais deliciosos beijos, e dos mais gostosos abraços. Seus seus seus. Tudo você. Tudo seu. Toda tua. Você sempre tão insuportavelmente orgulhoso e ilegível. Tão incógnito em minha vida... Ao menos não caímos nas besteiras ditas pelos invejosos e pelas cobras peçonhentas que nos cercam com olhos vorazes, e com uma vontade enlouquecida de estar em nossos lugares. Só que você saiba que nós poderíamos ter tido tudo, meu amor. Chorei muito por você, hoje só me irrito de uma forma terrível. Quero te socar, arrancar fora teus cabelos escuros e crespos, arranhar toda tua pele branca. E te cuidar, te cuidar até que a vida volte a te sorrir com o céu azul. Se azul não for a cor mais sorridente para ti, pinto o céu.  O tinjo de vermelho, tinjo o céu com meu próprio sangue. Faço isso por você e mais ninguém. Ninguém me domina da maneira chata que você faz. Ninguém me enraivece e depois me conduz a paixão queimante em milésimos de segundo. Só você. Você é o único para mim. E eu quero ser única. Somente a única. A única para você.


domingo, 30 de outubro de 2011

Pequeninos.

Juro que quero aquele idiota. O idiota para quem eu dispenso toda a minha atenção... Aquele abraço idiota. Aquele beijo idiota. Aquele jeito estupidamente bom de me segurar pela base da coluna. Aquele jeito ridiculamente confortável na forma que você mordia com uma delicadeza insana meu lábio inferior, trêmulo.
Seus olhos brilhavam quietamente, em contraste com a luz piscante da festa rolando, poucos metros do lugar no qual seus braços me colocavam delicadamente junto ao teu corpo bom. Seu cheiro no meu cabelo, teu gosto na minha boca inchada e vermelha. Era um sonho. Um grande e estúpido sonho. Um universo extremamente paralelo no qual as coisas boas duram mais do que um milésimo de centésimo. Mais do que uma noite estúpida.
Não vejo mais motivos para criar ilusões extremamente auto-destrutivas para o que resta da minha sanidade emocional. A ordem na qual eu me joguei é: deixa de lado. A vida é curta demais para se levar em conta todas as besteiras que as pessoas vão dizer sobre você. Nunca se apegue as pequenas falas de pequenas pessoas. Grandes pessoas devem se importar com os grandes, esquecer os pequenos. Afinal, porque seriam pequenos? Não há grande relevância na vida destina a esse tipo de pessoa no campo terreno.
Peça um chocolate quente com chantilly e um muffin de blueberry na cafeteria mais próxima da sua casa. Abre o jornal e vasculha o caderno de lazer, olha aquele filme cabeça que as pessoas estão comentando.... Quem sabe não há algo interessante por ali? Alguém sentado na cadeira de trás da tua no cinema, com um refrigerante para complementar a tua pipoca comprada no impulso da gula. Não há nenhum grande segredo nisso, já que todas as calorias e gorduras colocadas para dentro serão colocadas para fora da mesma forma, pelo mesmo tubo molhado. Algumas transformações ocorrem nisso, mas qual o problema? Nada permanece o mesmo em nenhum momento da vida. As coisas mudam. As pessoas mudam. O tempo todo. Olha quem passa do teu lado na rua, sorria para quem bem entender. Mas sorria de verdade, abre aquele teu sorriso bonito que mostra todos os seus dentes perfeitamente imperfeitos. Você foi moldado nos mínimos detalhes para ser o erro mais certo que já cruzou meu caminho sinuoso e cheio de pedras. Pisou duro, olho no fundo dos meus olhos e disse: ''não vou sair daqui, baby, não tão fácil.''. Empinou o nariz, olhou para o outro lado e montou tua barraca. Bem ali, no meu marco-zero. Você se tornou o marco-zero da minha vida. Não houve vida sem você. Não me lembro de como eu era antes de  teu acampamento teimoso no meu ponto de referência. Minha vida se divide em duas: antes e depois de você. Não há durante, meu durante é uma mancha obscura. Uma outra dimensão, você me coloca dentro de uma embalagem à vácuo e me deixa ali. Me joga de um lado para o outro, finca teus olhos médios dentro dos meus olhos assustados e acuados. Eu não te leio, eu não te vejo, eu não vejo modo algum de te decifrar. Te enxergo como um ponto de interrogação com pernas. Uma dúvida frequente e andante. Meu ponto de interrogação com o sorriso mais bem moldado e mais torto que já vi. Algo mudou dentro de mim, um reboliço enorme surgiu dentro do meu peito ao primeiro toque das tuas mãos grandes e fortes na minha cintura branca. Surgiu sim, e me surgiu de novo agora. No instante em que puxei a lembrança distante dos meus dedos para a superfície da minha mente estampada com o brilho dos teus olhos. No instante em que relembrei teus dedos buscando os fios do meu cabelo, para tirá-los do meu rosto, e teus lábios buscando os meus.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Vê se escuta de vez quem te rodeia e me manda de uma vez por todas pro inferno. Aproveita enquanto a minha carência tá longe de afetar meus pensamentos me deixando cada dia mais insana. Escuta, baby, escuta. Manda tudo o que passou pensando em mim pro inferno, me manda lá pro meio. Chuta essas lembranças feias pra longe e se joga na tua vida nova. Aproveita que é de graça, isso ninguém te cobra, ninguém te tira. Se aproveita do mundo insano que te cerca, aproveita todo o tempo perdido.
Deixo até você me odiar, por um tempo, com todo teu corpo claro, deixo sim. Mas vê se toma cuidado com todo esse amor profundo transformado em ódio profundo. Ódio tem vez que não passa, e ódio sufoca. E se tem muito, fecha a tua garganta e gruda na tua mente, te impede de ver o certo.
Se joga no mundo, aproveita tudo o que tu tem direito e vê se me dá ouvidos ao menos uma vez: para de sofrer por mim. Não compenso tudo isso. Você vai trombar com alguém bom pra você em alguma esquina, bar, ou qualquer bosta assim. Talvez hoje, amanhã, daqui dez anos. Mas vai. Acredita. Entendo o suficiente dessas coisas pra saber se tu vai ou não ser feliz, e eu te digo e repito, baby, você vai. Arranca a bunda dos teus amigos do couro gastado do sofá velho da casa deles, leva pra night. Bebe, dança, olha. Ou bebe e senta na mesa, conversando e fazendo a porra toda que vocês, homens, são especialistas: nada. Mas me tira um pouco dessa tua cabeça suja de moleque com hormônios saltando para fora dos poros abertos da pele do teu corpo translúcido. Me tira, me arranca, me arrasta pra fora. Mas saí de mim, saí da minha vida, me deixa sair da tua.
Entenda, não te quero mal. De jeito algum, já passou minha fase de querer alguém mal. Odeio um ou outro puto perdido por aí, mas você não. Você é bom demais para ser odiado por mim. Não tenta mudar, para de colocar ideias estúpidas na tua cabeça pra me impressionar, me fazer voltar atrás. Eu não vou te ver de outra maneira novamente. Isso, chora, grita esperneia. Chora muito, lava tua alma, teu pulmão, tua mente, e principalmente teu coração. Teu coração é bom, mas não combina com o meu. Lava ele, livra ele desse amor doentio que tu sentes por mim há tantos meses.
Arrume um novo amor em um período de quinze dias, troque sem pensar se amará o mesmo da mesma forma que amava o último. Te entrega de peito, alma, coração, músculos, música. Faz que nem eu, arruma outro, outros, milhares de novos olhares para buscar dentro de multidões lotadas de tantos corpos com os mesmos objetivos fúteis. Mas vê se me abandona por ali, em algum canto escuro da tua alma. Eu fico aqui, no meu canto claro. Olhando pra nossas lembranças e sorrindo um sorriso gostoso de quem já foi feliz um dia, mas já não é mais tão feliz. Não tem chances de uma nova história para nós, baby, aceite isso de uma vez por todas. Não insista em uma coisa desgastada o bastante para te fazer chorar, te fazer querer morrer.
Entenda, não quero te ferir, nunca quis. Mas cheguei a um ponto em que já não tenho muitas opções: ou firo ou firo.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Nenhuma chance de mostrar a emoção que está atrás da maquiagem delicada e deliciosamente trabalhada. Não falarei, ninguém sabe. Ninguém está vivo e sabendo. É fácil demais manter um segredo quando apenas duas pessoas o conhecem, e uma delas está sob a terra.
No início, desejei que você me fizesse bem, quis que você me desse motivos para sorrir aquele meu sorriso insano. Mas, hoje, depois de tantas noites com a cara sufocada pelo travesseiro, e com um nó seco e mal dado na garganta, eu só quero que você não me faça mal. Só quero que não me façam mal. Não posso exigir que você me pegue pela mão, me conduza por uma escadaria de mármore tão branco quanto o brilho das estrelas. Não há como exigir meu corpo dentro de um vestido champanhe, com pequenas pedras brilhantes bordadas até a barra, aos meus pés. Não posso exigir suas mãos em minhas costas nuas, em um buraco pensado e repensado e aberto no tecido fino e elegante de meu vestido bonito.
Ultimamente, não ando me permitindo nem sonhar. Nem a esse luxo posso me sujeitar. Histórias cinderelescas não são para mim, o amor não anda sendo para mim, mas ainda assim, essas histórias brotam em minha mente fudida de tantas ilusões e desilusões. Pura babaquice dizer que sonhar não custa nada, custa muito baby, custa muito, muito caro. Custa tua felicidade, tua esperança de uma vida mais bonita nesse mundo sujo. ''A esperança é a última que morre'' de morte morrida, mas a primeira a morrer de morte matada. A esperança morre primeiro nas mãos de gente fresca, assim como eu, como você.
Ando ouvindo que estou amarga, azeda. E ouço mais ainda pessoas tolas atribuindo essa amargura tão minha a minha falta de amor. Ah, baby, falta de amor não é. Eu sou amada, muito amada. Me amam muito, das mais diversas formas, intensidades, idades. Mas me amam, sou amada demais. Talvez, tenha esse meu jeito chato, irritante por excesso de amor, mas nunca por falta. Essa atenção demasiada me transformou nessa pessoa difícil de engolir a seco com a garganta pouco úmida que o mundo tem.
Vai lá, encosta tua barriga no balcão e pede um copo da vodca mais vagabunda que tu encontrar por ali. Você e esse seu espírito fraco não valem nem doze reais da vodca mais mediana que existir. Vira isso duma vez, seja homem pelo menos essa noite. Deixa o líquido sujo e puro descer queimando essa tua garganta fechada.  Desista, baby, desista. Give up. Desse teu jeito encardido não há nada útil para ser tirado, nada que realmente valha a pena buscar. Suja tua boca na boca de outras vagabundas como as que você costuma passar suas noites, encosta teus lábios nos lábios de alguém com um batom podre, velho e barato.
Só vou te pedir para sumir, ou para entrar de vez na minha vida. Esse teu vai-e-vem me exaure, me cansa até o último fio da minha alma. Você não sabe como essa tua ausência tão presente me dói, me corta, me rasga por dentro. Só te peço uma coisa se resolver ficar: fica por completo, não te aceito pela metade. Não cato migalhas e restos de sentimentos sentidos pelo avesso. Pensa bem, se tu ficar me dou pra você. Te juro.  Atravesso a avenida do mundo e paro no beco dos teus braços finos e protetores quando me abraçam pela minha cintura. Te asseguro que ali permaneço.
Mas se escolher ir embora, vê se escolhe bem. Pega o caminho do sol, e deixa que eu te guio pelo outro lado. Positivo, negativo. No teu caminho de sol, te guio no caminho das minhas escolhas tortas, erradas. Se fugir para a direção errada, te levo pro leste pra ver o sol nascer. Juro que te guio, juro que te cuido, jura que me cuida.
Te quero bem, vê se aguenta o peso que o mundo vai jogar em cima de ti. Chuta pra longe e vai, o mundo todo não é responsabilidade tua.
Só te cuida para não desandar, não gaste tudo por uma boca de batom vagabundo  em algum boteco  perdido na noite mais suja da tua vida nova. Olha dentro, vê alma, coração. Essa beleza física cai, murcha, deforma. A beleza de dentro levanta, infla, melhora. Mas vê se acha o equilíbrio, não quero encontrar contigo preso em braços belos e alma podre. Nem em alma nobre e braços podres.  Coloca na balança, olha o lado que pende. Não tá reto? Joga fora. Precisamos de equilíbrio, baby, precisamos tanto... Se não achar, me procura. Te ajudo, me ajuda.
Mas vê se te cuida direito. Não posso te cuidar sozinha se tu não quiser também meu bem.
Te preciso muito hoje, vem. Vem, vamos tomar um suco de amora no quiosque natural do shopping aqui perto. Um suco de amora, um suco de amor. Pago teu suco, e não te exijo nada além de você por perto, seu sorriso bobo e alguns comentários banais sobre a idiotice mundana que nos rodeia. Só isso baby, só isso.
Talvez você não percebe meus olhos, delicadamente trabalhados com um traço denso e preto, manchado e escorrido. Você talvez não note a minha voz levemente embargada e com um leve traço de mágoa. São coisas assim, bobas, banais, que me assombram em minhas noites mais frias, mais escuras. E no meio dessas minhas noites doloridas, você me surge, carregado pelo brilho da Lua, pelo brilho das estrelas. Você surge, bate na minha janela de madeira, e entra. Simplesmente entra, sem pedir licença, sem olhar no fundo dos meus olhos assustados pela sua presença súbita e inesperada ali, na minha frente. Antes que eu consiga colocar em meus pulmões a menor partícula de ar que saiu rodopiando dos seus, você senta ao me lado, e me olha. Me olha com aquele seu olhar indecifrável, que tanto me incomoda e que tanto adoro.... Pouquíssimos instantes depois, me vejo empoleirada no teu peito fino, começando a ser definido, seus braços estão me sustentando, me mantendo ali, presa aquele momento somente contigo, você respira no espaço formado entre meus finos fios de cabelo e meu pescoço. Fico ali, aninhada no teu abraço bom, chorando no teu pescoço cheiroso. Adormeço com essa imagem na cabeça, solitária, abandonada, do jeito que eu conheço desde que me lembro como é respirar, adormeço ali, abandonada num mundo canibalesco.
Pego no sono com a esperança estúpida de que ali, tu vai me deixar em paz, longe da paz sombria de quando estou perto do teu rosto bonito. Mas nem ali tu me deixa! No sonho, criei a ilusão de que poderia ser feliz sem medo de cair, ou de ser jogada precipício abaixo. Te alcanço sem titubear, mas assim que me aproximo... Você some, explode em uma nuvem de poeira azul royal. Meus olhos miram o chão, e eu caio. Algumas vezes, a vida começa a sorrir para mim - mesmo que no inconsciente - e você volta, me reconforta ali, no meio de tudo ou no meio do nada. Outras vezes, você me deixa ali, sozinha. Ou simplesmente me assiste morrer aos poucos de algum canto mal iluminado no horizonte que vejo de dentro dos meus sonhos.
De qualquer forma, to te precisando hoje, baby. Te precisando muito.

sábado, 17 de setembro de 2011

Cansei de tentar insistir numa história que não terá nenhum futuro, insisti por um tempo bastante longo. Fui contra o que todos me diziam, não acreditava no que via ao meu lado, não podia acreditar. Eu não queria acreditar.
A verdade é que eu nunca quis desistir de uma coisa que procurei a vida toda, desistir de uma coisa que eu sabia no fundo da minha alma, que me faria um bem enorme se eu tivesse nos meus braços. Quando você procura por algo durante muito tempo, você encontra, mas essa tal coisa não é destinada para você. A felicidade não é uma coisa criada para você ter. A vida gosta de aprontar coisas assim comigo, me apresenta um desejo muito além do meu alcance, algo que eu sempre sonhei. Me faz sonhar com isso todas as noites, mas nunca me deixa chegar perto, me firo de propósito, sei que não conseguirei alcançar. E todas as vezes em que eu caia nessa velha história, eu me afundava cada vez mais, não me permitia agarrar a corrente que me levaria ao topo outra vez, eu não queria. já estava profundamente acostumada com a dor de ser largada, esquecida, abandonada dentro de um poço fundo, no lugar mais escuro do mundo. Lá, do fundo, as estrelas já não eram visíveis, nada fazia sentido. Nada faz sentido quando você já não tem mais o que perder, suas fichas estão acabadas, e ninguém mais acredita em uma palavra que sai de sua boca amargurada.
No fundo, a vida já não tem sentido, não há com o que sonhar, você não pode se permitir sonhar quando não há nenhuma chance de melhora. Depois de um tempo morrendo aos poucos, as coisas mudam. Algo é necessário para que não exista a loucura completamente profunda e irremediável, e nesse momento, você sonha. Volta ao passado, relembra coisas que nunca deveriam ser tiradas de dentro da caixa escura, trancada e jogada no fundo da memória. As feridas são cutucadas, reabertas com toda a força possível, cada lembrança que fora um dia feliz e que hoje é dolorosa é invocada, vozes, toques, suspiros... tudo isso é tão concreto que é possível até sentir o cheiro. Você sucumbe, cai na tentação de querer subir novamente, mesmo sabendo que irá voltar ao fundo quando menos esperar. Seus joelhos lhe traem, e tudo o que você sente é o sangue escorrendo no chão íngreme, cheio de falhas e coisas cortantes. Leva as mãos ao rosto, e sente as lágrimas caindo sem pedir permissão. Tenta dormir, fugir um pouco da tortura induzida, mas não pode, sua consciência é cruel demais para lhe permitir fugir disso. As lembranças ficam cada vez mais nítidas, e não há mais o que fazer para lutar contra, só abaixar a cabeça e mergulhar na dor. Sem se preocupar em voltar para a superfície,
O tempo vai passar, e antes que você se dê conta, nem se lembrará direito do que houve naquela noite, tanto tempo atrás, sob a meia luz. Nada mais fará sentido, não importará. A luz do sol existe outra vez. Está curada, não há ferida aberta. Mas o mundo não é bonito, e antes que toda a liberdade possa ser curtida de uma forma decente, algo lhe leva de volta. Ele ressurgiu, faz travar seu corpo inteiro. Na sua cabeça, só há aquele filme ferino, cheio de lembranças, memórias e sonhos. As mãos nas suas costas, o cheiro no teu pescoço.... Você caí de novo, caí fundo. Em um piscar de olhos, voltou ao fundo, não sabe como sair de lá, nunca havia sofrido uma queda tão brusca, tão de repente. A voz recentemente escutada, ainda ecoa nos pensamentos, o olhar ainda não para de lhe encarar. E você eu sucumbo outra vez, desisto de tentar desistir. Não há como parar de sonhar com uma vida perfeita, ou medíocre. Nada importa, desde que o sonho esteja comigo, meus sonhos mais bonitos personificados. A voz não se calava, a cabeça gira sem parar. E num passe de mágica, as coisas passam a fazer sentido. A subida não é permitida nesse mundo, no meu mundo. Eu devia viver no fundo, aceitar as lembranças, sonhar com meu pequeno príncipe me jogando algo e me levando de volta para cima, ao seu lado. Me fazendo perder o medo de perder sua voz.... A voz é algo que eu não posso viver sem, a voz, o riso... Meu maior temor era ter perdido a lembrança de como soava, ter esquecido o timbre exato, esquecido como ela soa quando ele sorri.  Eu tentara fugir das lembranças, tentei o espantar de meus pensamentos por tempo demais, com todas as minhas forças. Ele não poderia ter voltado, eu não podia pensar nele. Mas eu pensava, eu lembrava, eu sonhava. Doía, mas eu fugia da dor intensa por dias, melhorei com o tempo. Longe, eu não sentia nada, era toda torpor, não havia nada que me fizesse ascender, ou decair. Eu estava planando no purgatório. Mas no momento em que reencontrei aqueles olhos, desejei a dor. Lutei contra tudo o que mais preservara, o que levantara em volta da dor, destruí fortalezas imensas dentro da minha mente, dentro do meu peito. Eu queria a dor. A dor era a única prova de que nada daquilo que me assombrava nas minhas noites mais frias e solitárias de que ele existira na minha vida. E que continuava existindo, mesmo longe. Eu já estava exausta de tentar me proibir de lembrar de tudo, e eu não poderia esquecer.
Não fazia ideia de por quanto tempo eu continuaria infeliz, se era uma coisa temporária - como todos me diziam incansavelmente - ou se duraria para sempre. Talvez, se fosse temporário, eu conseguiria lembrar tranquilamente desse tempo, sem sofrer tanto, ou até mesmo, sem sofrer. Talvez, se tornaria uma lembrança neutra, algo que marcou na época, mas que no futuro, não me afete.
Eu não podia continuar lutando contra meu destino, a única coisa que me fora reservada era a profunda solidão, o abandono completo. E mesmo no fundo, pude voltar a ver as estrelas.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sentou-se em um bando do jardim escuro e olhou para o céu. Haviam poucos pontos acesos no céu negro, poucas estrelas naquela noite. Encarou aquele pequenos pontos iluminados fracamente por algum tempo, olhava sem se cansar, via desenhos se formando, desenhos, memórias, palavras. Lembrou-se de sua infância, das vezes em que deitara na grama verde e observara as nuvens, observara as estrelas. Lembrou-se também de sua avó, das vezes que ia com ela ao parque não muito longe dali para fazer pique-nique. ''Já fazem oito anos...'', pensou, sua avó já havia partido, já a havia abandonado já havia oito anos. Levou a mão até o pequeno pingente que carregava todos os dias numa gargantilha. Um pequeno coração de ouro branco, trabalhado minunciosamente, com pequeníssimas pedras incrustadas. Suspirou e lembrou-se do infeliz motivo que a levou até ali. Sentiu os olhos se enxerem de lágrimas, e piscou rapidamente por algumas vezes, para espantar as lágrimas inoportunas. Uma tentativa em vão, tola, sem nenhum resultado. Percebeu a luz do celular acendendo, e ouviu o som indicando uma nova mensagem. Lançou o celular para debaixo do banco, sabia quem havia mandando a mensagem, e tinha uma ideia muito clara, muito dolorosa, do que se tratava.
No instante em que o celular tocou o chão, ela perdeu o controle. Seu corpo já não respondia ao seu cérebro, respondia ao seu coração. E naquele momento, a ordem dada foi parar de resistir. Seus joelhos dobraram até tocarem o chão, as mãos foram de encontro ao rosto, cobrindo os olhos, as lágrimas inundaram sua face. Lágrimas grossas, pesadas, carregadas de dor, lágrimas de um choro sem som. Fugira daquele momento o máximo que podia, mas nenhuma fuga é eterna, e o momento final havia chego. Ela estava encurralada, a última parede em um túnel íngreme de um labirinto. Ela já não poderia continuar fugindo de si mesma, não poderia fugir do seu próprio destino, por mais doloroso que fosse. Ela não era boa o suficiente, não era boa o bastante para nada. Lembrava-se disso todas as vezes em que recaía na doença, todas as noites, algumas tardes, e raras manhãs. Lembrava-se disso a cada novo valor que recebia nos estudos. Resultados de tardes de dedicação, trabalhado duro convertido em nada. Lembrava-se em todos os instantes, esse pensamento não a deixava em paz. Perturbava-a até mesmo em seus sonhos mais bonitos, não há remédio algum que a cure dessa doença, desse problema. Não é doença do corpo, é doença da alma. Não há morfina alguma que cesse a dor que ela sente, a dor cortante de dentro da sua alma, dor que vem de dentro para fora.
Ela não era boa o suficiente para a vida, nunca seria o destaque. Não nascera para viver nos holofotes, e sim, nos bastidores. O mais longe possível da luz, o mais perto da sombra, longe da atenção do mundo. Não era boa para ter sucesso, não era boa para ser o sucesso.
Não poderia lutar contra isso com tanta força, existem coisas pré-definidas na vida, e não há maneira alguma de mudá-las. Mas ela gostaria de que as coisas fossem diferentes, demorou para aceitar isso. Mas a vida é dura com quem não nasce com talento para algo, e pior ainda com quem não nasce para ser boa. Ela queria ser boa, realmente queria.  E ela vai até o fim para conseguir isso.
No meio de todo o pranto, de toda a dor, a lua reapareceu no céu. Gorda e brilhante como sempre seria. Lua Nova. Uma parte na sombra, uma parte na luz. Saindo da sombra indo para a luz, ou vice-versa. Igual a ela naquele momento, transição de uma coisa para a outra. Olhou novamente para o céu, levantou-se, limpou as roupas, secou as lágrimas. Abaixou-se para pegar o celular, respirou fundo e ao abriu. As mãos estavam trêmulas e os pensamentos mais bagunçados do que de costume. O conteúdo a surpreendeu, a última coisa que ela esperava naquele momento. Mas a melhor. O firmamento da transição sombra-luz. Final de uma história, começo de outra. Coisa tão banalmente essencial, fazer o que.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ela estava de preto. Confundiria-se com a noite, se fosse noite. Mas não. O sol sorria aquele sorriso amarelo e ardente do alto daquele céu azul anil. Os cabelos castanhos caiam até um pouco abaixo dos seus ombros, brancos. Nada a faria mais vulnerável naquele dia do que toda a situação. Ela estava enfraquecida, azedando aos poucos.
Ela sorria um sorriso morto, já não possuía tanto brilho como possuíra algum tempo antes. Acho que isso é o que acontece com quem se joga de tantos precipícios: azeda, estraga. E não havia outra forma de isso não acontecer a ela. Ela é humana, e algum dia já teve sentimentos. Em algum passado remoto, os sentimentos eram bonitos, tão brilhantes quanto as estrelas. Hoje, uma caverna tem mais luz do que seu  coração. ''Está morto'', ela não cansava de repetir. Repetia isso para todos, inclusive para ela mesma, na esperança de fazê-la acreditar no impossível, no inacreditável, no inalcançável. Mas, isso é característico da espécia humana: ir atrás da dor. Pessoas correm atrás do que vão fazê-las chorar por um longo período, em troca de uma noite, um dia, uma hora de felicidade. Felicidade superficial, falsa, enganosa. Um sorriso duro nos lábios vermelhos escuros,  lágrimas secas nos olhos marcados fortemente de preto.
Levantou-se da cadeira e foi até o espelho. Olhou fundo nos seus próprios olhos, e tocou seu rosto. Sentindo cada uma das marcas fundas nele. Abriu a gaveta, alcançou a maquiagem., destampou o lápis e reforçou o traço nos olhos. Lembrou de lhe dizerem sempre para não usar cores fortes, nada de preto nos olhos, cores fortes nos lábios. Aquele era outro sintoma, a quantidade de gente querendo controla-la, e não havia nada que ela odiasse mais do que controle. Nunca dera ouvido aos comentários sobre cores fortes. E passava, todos os dias. Era seu gosto, seu jeito. Porque mudá-lo? ''Não fica bom, desbota'', ela já estava desbotada havia muito baby, nada mais poderia lhe tirar a cor. Forçou ainda mais o lápis, e mais tarde, forçaria mais ainda o batom. Não desgastaria. Ela gostava de como aquilo parecia, de como aquilo soava. Gostava da falta de cor no rosto, gostava do escuro. ''Não chore, não chore, não chore.'', não parava de repetir essa frase tão em vão dentro de sua mente perturbada. Criara a ilusão de que poderia se esconder debaixo da maquiagem. ''Quanto mais maquiagem, menos emoções.'', filosofia forçada, perturbada, machucada.
Tocou os lábios, feridos, reforçou também o batom. Escuro, tão escuro quanto seu interior. Nothing special, nothing different, baby. Prendeu os cabelos escuros com um grampo. Olhou seu rosto pela última vez, e sentou-se na cama. Alcançou um sapato alto, alto o suficiente para passar a imagem de superioridade, imagem de indiferença. Calçou um pé de cada vez, com lentidão. Lembrou-se de Cinderella. Fudida a vida inteira, casada com um príncipe, sorriu de canto, um sorriso ácido, irônico não? No final tudo dá certo. Falsidade, mentira, calúnia. Nada dá certo se não é para dar, chega de mentiras. A vida é duro, o mundo é cruel, e ninguém vai te dar chance. Calçou o outro pé, levantou-se. Olhou-se no espelho, ''ótima fantasia'' pensou enquanto dava uma volta em seu eixo para poder se enxergar melhor, ''assim todos pensarão o que eu quero que pensem''. Foi até a prateleira, alcançou seu perfume favorito, Passou um pouco em locais estratégicos. Escolheu brincos, anéis, colares e pulseiras, colocou-os. Olhou-se no espelho. Viu o reflexo da imagem final. E passou pela porta. Pisando forte, coração tremendo, rosto levantado, e cabeça no presente. Passou pela porta e não olhou nunca para trás.

sábado, 3 de setembro de 2011

Não adianta. Simplesmente não adianta. Tem coisas que não dão liga na vida. Ser feliz, bem resolvida e etc, é uma coisa que não dá liga na minha. Afinal, pra que ser desejada né? Pra que ser bem vista né? Não adianta, eu luto contra toda essa babaquice de não preciso disso, daquilo, daquilo outro. Mas, olha só. Para tudo. Revelação chocante. Eu preciso sim. E preciso muito. Ah, como eu preciso de alguém me querendo. Como eu preciso de que alguém que eu quero me queira também. Preciso sim. É da natureza humana, da natureza feminina, da minha natureza querer alguém. E, infelizmente, é da minha natureza não ser desejada. Não há jeito algum de algumas coisas darem certo na minha vida.
Andei pensando aqui com meus neurônios, zíperes e etc: ser desejada sai caro. Estica daqui, pinta dali, repuxa de lá, aperta, enxuga, seca, não respira. Cansa. Sai caro. Pra quê? De que adianta você sair linda, maravilhosa, divina de casa se a imagem que as pessoas tem de você não muda? Se todos vão te ver apenas como ''amiga''?
Acho que nem uma máscara, fantasia, nada muda isso. Ou será que muda? Bom, tanto faz. A questão é que toda essa mudança demora, demora. Demora éons. A verdade mesmo, é que sempre vai ter alguma amiga sua chama mais a atenção que você. Sempre. Não importa o quão princesesca você esteja, o destaque não vai ser você.
Ou talvez até seja. Mas isso é felicidade, e disso eu não entendo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Juro que eu ando tentando me afetar psicologicamente o suficiente a ponto de chorar, mas não dá. Não tá dando. Já deu o bastante. Sim, eu ainda fico triste. Isso é inevitável. Mas não choro. Passo cristal, corto cebola, coço os olhos, os mantenho abertos tempo o suficiente.... Mas nada. Nadica de nada. Nem uma lágrima mixuruca desce dos meus olhos. Dizem, que, depois de um tempo, depois de muito chorar, suas lágrimas... ''secam''. Ou pelo menos, precisam de algo a mais para aparecerem. Não entendo o porque. Lágrimas são coisas fundamentais na vida de um ser humano, ainda mais na vida de uma representante-do-sexo-feminino-cheia-de-hormônios-a-flor-da-pele, como eu.
Isso é mito, claro. Já viu algo absurdo desse ser cem por cento verdade? Bom, eu não. Mas já vi verdades absurdamente ridículas. Anéis em batatas, matemáticos ''bruxos'' - não que eles não sejam loucos, retardados, problemáticos, doentes e etc, mas bruxos não -, impostos por causa de barbas..... Bom, absurdas. Acho que os cientistas, intelectuais e desocupados fundaram uma associação. Algo com o intuito de inventar coisas para deixarem nós, ''meros'' mortais, nos perguntando se isso é ou não verdade.
Uma forma de controlar o mundo, penso eu, do alto de pouco mais de uma década e meia de vida.
Seguramos coisas assim, perguntas assim, dentro de nós mesmos. E essas pequeninas perguntas nos levam a milhares de outras perguntas, que nos levam a um enorme labirinto. E cada vez ele fica mais, mais, mais, mais, mais, mais, mais fundo. Uma bola de neve, um carvão em brasa em cima do nosso peito. E aquilo dói, arde queima. É o retorno da idade média. Idade das trevas. Sem direção alguma para o conhecimento. Gosto do Illuminismo. Gosto das luzes, da claridade. Luz representa a sabedoria, gosto disso, gosto da ideia de saber, de conhecer. Gosto de saber como agir, como não agir. E gosto quando as pessoas sabem o mesmo para comigo. Ainda mais, se me agrada.
Essa história de gosto-de-quando-fazem-o-que-me-agrada é coisa de gente tão.... intocável. Assim como eu, assim como você. Somos frescos o bastante para querermos escolher como seremos felizes, com quem, quando, porque. Apesar de ser extremamente burguesa essa ideia, gosto dela. Acho que devemos sim termos direito de escolha sobre nossa felicidade. Mesmo que isso signifique ferir os outros. Mas, ei, não sempre. Se esse ferimento proposital se tornar uma coisa constante, você não quer ser feliz. Você quer ver sofrimento. Quer sofrimento? Vai pra África. Lá, infelizmente, é sofrimento puro, elevado à décima potência. Mas claro que ninguém vai sair da tua cadeira macia, largar tua xícara de chocolate quente com um tablete de chocolate amargo derretido, sair debaixo do teu cobertor de lã, e deixar o gato de lado, para ir até a África em busca de uma coisa mais reconfortante que a nossa vidinha perfeita. Claro que não. Somos acomodados, tenho dito. Geração comodismo. Queremos tudo, não fazemos nada. Foi-se o tempo de que adolescentes iam às ruas lutar por alguma coisa. Isso não é certo. Mas vamos esperar a próxima geração, quem sabe eles façam mais coisa que a nossa geração cadeira.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Tenho um certo trauma de relacionamentos. Virtuais, presenciais, imaginários, por cartas, sinais de fumaça ou qualquer coisa assim. Passei um ano e dez meses metida num que só me deu problema. O garoto em si já era um grande problema na minha vida. Tinha tudo, tudo, tudo, mas não queria. Fazia tudo errado. Brigávamos, voltávamos, brigávamos, voltávamos,  brigávamos, voltávamos,  brigávamos, voltávamos,  brigávamos, voltávamos,  brigávamos, voltávamos..... por um ano e dez meses fomos assim. Até que eu me enchi, e terminei tudo. Não, fácil não foi. Ah, como doeu. E dói até hoje, acho que eu não quero superar. A vida da gente faz a gente lembrar quem foi bom pra gente mesmo sendo ruim. E eu confesso que tenho um certo medo de superar, e que as vezes ainda me pego olhando nossas conversas. Hoje, me dá nostalgia, não dor. Mas ele me faz falta.
Não é segredo para ninguém que, se você tem algo contra alguma coisa, essa coisa vai te perseguir. E não foi diferente comigo-e-meu-trauma-de-relacionamentos-de-qualquer-tipo. Me surgiu um novo. Claro, sempre surge. A principal diferença entre esse ''novo'' e o meu primeiro e traumatizante amor virtual, é que nesse eu conhecia pessoalmente o nada afortunado que resolveu me ''aguentar''. Um anjo. Isso eu não posso negar. Atravessamos oito meses sem nos ver, e cara, como doeu.  Dói bastante você querer alguém aí, do teu lado. Com as mãos nas suas costas, a respiração no teu pescoço, os dedos no teu cabelo... Dói, dói muito. E de tanto doer, tem hora que as coisas tem que acabar. E ainda assim dói. Claro que dói. Já viu ferida em carne viva não doer? Bom, eu não. E olha, de feridas em carne viva, joelhos abertos, rasgos nas pernas, braços expostos, e corações partido, eu entendo. Talvez eu entenda melhor do que jamais quis, ou pior do que eu deveria. Mas tenho um conhecimento medíocre sobre essas coisas, essas questões da vida. Principalmente, se aquelas quatro letrinhas estiverem metidas no meio. O que não é surpresa alguma para ninguém. Acho que até mesmo Platão, Shakespeare e tantos outros sofreram muito com isso. Maldição mitológica por péssimo comportamento ancestral, seu ta-ta-ta-ta-tataravô foi uma péssima pessoa e as próximas vinte gerações foram amaldiçoadas. Porque não? Nunca vi nada comprovando a existência de nenhuma divindade. Nem descomprovando.  Busco algo novo. Nem que seja uma palavra nova. Não gosto de coisas pré-definidas. Se nossas coisas já são pré-definidas porque escolhemos caminhos, pessoas, lugares? Não daria tudo na mesma? Não, aqui não. Nada acontece por acaso. Admito isso em alto e bom som. Ainda não ouviu? Pensa bem vai, logo você ouve, entende, compreende, reflete. E quem sabe, até me apoia nessa ideia louca de tentar entender-não-entendo as coisas. Merda, a filosofia anda me possuindo.
Dói, mas para variar um pouco, passa. Ou pelo menos alguma outra porcaria surge na sua vida e te faz mudar de foco. Acho mudança de foco outra coisa complicada. Você dispensa a atenção de algo que pode ser muito mais importante, para uma outra não tão importante assim. Acho que é aí que as feridas cicatrizam. Ou pelo menos, começam, tentam. Não acredito no definitivo. Tudo tem volta. Quase tudo. Sentimentos as vezes são enterrados, corroídos pelos vermes, porque era ali que eles deviam ficar. Ou foi ali o lugar que o destino reservou para eles. Nesse caso, o fim é claro e definitivo. Nada pode mudar.
Então, um brinde as mudanças de foco. E que seja assim para sempre. Porque parar de sentir, a gente não para. A gente só esconde, muito bem escondido. Dói menos. Tanto faz, essa coisa de doer anda me cansando demais. Dor é uma coisa tão obsoleta, tão ultrapassada. Mas fazer o que, é o que temos para hoje.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Descobri que ando muito sozinha. E descobri também que isso não é tão confortável quanto eu pensava. Descobri isso agora, na hora do jantar. Eu e a minha pizza. Só nós duas na cozinha toda branca. Cozinha agora, tão triste, mas que tantas vezes já foi lotada das risadas dos meus amigos, das pessoas que eu realmente gosto. Ando tão só, tão sozinha... tão só eu e eu mesma. Cansa viu? Nem sempre levar uma vida assim, tão... independente, é legal. Machuca, machuca muito. Eu encarava aquela pizza com cinco pedaços restantes de oito. E ela me encarava. A calabresa apimentada me encarava, as azeitonas pareciam olhos me julgando. Me julgavam por repelir tanta gente, por mandar embora tanta gente.
Eu andava bem, juro que andava. Mas o muro cai depois de um tempo. A liga já não anda tão fortalecida quanto antes. O vento bate, a água ataca, as pessoas batem.... E ele vai enfraquecendo. E tem hora, que ele cai. Cai sim, não adianta fugir, negar, mentir, evitar. Ele VAI cair, e quanto isso acontecer, não vai ter nada que você possa fazer contra. Teu muro vai cair em cima de você. E as coisas vão dar errado. A ordem vai ser chorar, reclamar, gritar, fazer voz-de-patricinha-de-filme-hollywoodiano-de-mil-novecentos-e-bolinha,  bater o pé, chorar, chorar, chorar.
Coloquei um pedaço de pizza de calabresa na boca. A pimenta escorreu, queimando a minha língua tão machucada, com tantos cortes abertos, causados por atitudes impensadas, tolas, fúteis e adolescentescas. Lembrei da última vez que comi aquela pizza. A lembrança sorriu, mas o coração chorou. Chorou fundo, doído, doído. Até a alma entristeceu com o choro. A cozinha ficou menos branca. Meu cachorro calou. Meus dedos soltaram o garfo, e a calabresa ralada se abriu no prato. E ali ficou, ainda me encarando. Não chorei. Acho que tudo isso andou me fortalecendo. Não que não doa, pois dói sim. E como dói. Lembrei daquelas quatro pessoas sentadas em volta da mesa, comendo aquela mesma pizza, rindo de tudo, rindo de nada. Estávamos tão feliz naquela noite... Tão felizes.
Até meus amigos andam me abandonado. Me esquecendo, assim sabe? Devagarinho, devagarinho, mas andam. Já quase não tenho ninguém para ligar de madrugada. Se é que tenho alguém. Ando tão sozinha, tão eu comigo. Quero meu sorriso de volta, meus olhos secos e meu riso escancarado. Quem foi que roubou minha alegria?
A poesia oculta em uma pizza é enorme. Ao todo, são oito, doze ou dezesseis pedaços. A pizza nunca está sozinha. Ao contrário de nós. Bichos pensantes, com duas pernas, dois braços, mãos e pés. Repelimos as pessoas de perto de nós. Cansamos da mesma situação. Nos fingimos de fortes. Mas aí, ao pedir uma pizza, o muro vem abaixo. É tudo culpa da pizza.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

E se todo mundo gostar mais de Guns n' Roses, Ac/Dc, Aerosmith, Pink Floy e etc e eu gostar mais de Legião Urbana? E se eu achar Renato Russo um gênio inalcançável perto do Axl Rose? E se eu tiver amigos que não acham a mesma coisa? E se esses ''amigos'' me influenciarem o suficiente, ao ponto de eu esconder meus verdadeiros gostos? E se eu que comprei meu cd do Justin Bieber, do Catch Side e do Cine? E se fui eu também que comprei meu cd da Manu Gavassi, na Livraria Cultura, da Paulista, point de gente cool, inteligente, interessante, alternativa e todos os outros adjetivos? E se eu ainda escuto todos esses cds? E se eu achar Abba coisa de gay? Assim como Creedance e Bee-Gees? E se eu não ligar pra U2, Eric Clapton, Blue Man? E se eu gostar mais de Pretty Little Liars? E se eu gosto de Friends, Cold Case, House, The Big Bang Theory, e House do que de Lost? E se eu NÃO gostar de Lost?  E se eu já gostei muito de colírio? E se eu já tive mais de mil fotos de colírios no meu celular? E se eu gostar de Fiuk? E se eu ouço pagode, rock, pop, country, punk? E se eu gostar mesmo do Brasil e das coisas daqui? E se eu gostar de Sex Pistols e de Taylor Swift? Quem foi que disse que eu não posso rabiscar minhas paredes? E se eu leio desde revistas científicas até livros lindíssimos? E se eu gosto de gatos, cachorros, passarinhos, coelhos, cavalos, peixes e vacas? E se eu não tiver medo de altura e não quiser fazer uma tirolesa? E se eu assistir canais científicos e canais infantis? E se eu esconder o que eu gosto por causa dessas amizades? E se eu cansar de esconder? E se eu gostar mesmo mais de Legião Urbana do que de rock ''de verdade''? E se eu jogar tarot uma vez por semana? E se eu fizer combinações astrológicas? E se eu acreditar em signos e não acreditar em uma palavra do que você me diz? E se eu realmente quiser gritar pro mundo inteiro que Renato Russo era SIM o cara mais inteligente do último século? E se eu cansar de ser influenciada por essas drogas de amizades egoístas, orgulhosas, e de certa forma, preconceituosa? E se eu quiser ir na Livraria Cultura comprar só um chiclete? De tutti-frutti, da marca mais barata que eu encontrar? E se eu estiver cansada de tantos ''e se''?
Afinal, que eu me lembre, eu não assinei nada falando sobre o que eu ia gostar ou não. E quer saber? Cansei de esconder. E olha só. Eu gosto mesmo de tudo isso. E o que você pensa? Ligo tanto pra isso quanto ligo pra verduras. Ou seja, nada.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Tu anda me fazendo falta. Anda sim, e não anda pouco. Tem alguma coisa muito complicada na minha vida, desde que eu tive que te mandar passear. Desde que eu desisti de nós. Sim, de nós. Não de você. É claro que existe uma grande diferença entre desistir de nós e desistir de você.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Acordei virada. Um pote de ácido na língua, um punhal nos olhos. Tem dias que acordo assim. Terrível. Chata. Irritante. Malvada. Mas todo mundo tem uns dias assim. Dias do inferno na terra, habitando meu corpo. Coisa totalmente normal. Nothing special, honey. Afinal, a vida é composta por esses inferninhos. Tudo ia ser um inferno maior ainda se só existem sorrisos. Tem coisa mais enjoativa do que sorrisos por todos os lados? Talvez uma. Mas tem uma única coisa que me mandaria de volta para a minha sanidade rapidinho, rapidinho. Você aqui. Você, com a sua chatice incomum, seu jeito de rir, de brincar, de passar as mãos nos seus cabelos escuros. Suas mãos nas minhas costas,do seu sorriso torto, me sorrindo do canto dessa boca tão gostosa. Teus dedos dedilhando as cordas daquele teu amado instrumento. Eu sorrindo ao ver aquilo. Tão doce.. tão longe.
Mas a saída toda pra essa doçura enjoativa, ridícula convenhamos, é saber que eu não posso voltar lá. Eu não posso mudar nada do que aconteceu. Era pra ser. Nossos destinos estavam pré-destinados a se cruzarem. Estava escrito nas estrelas, nas ondas do mar, nas palmas de nossas mãos quentes quando juntas, ou somente no rodapé dos meus cadernos, agendas, provas, livros e mesas. Mas vou levando né. A sorte é que dessa vez, eu to é bem pé no chão. Sem cabeça nas nuvens, observando tudo do alto. Claro, ninguém não sonha. Desejo te ter aqui comigo. Mas to com a cabeça bem aberta, e to sabendo de que pode ser bem difícil de um dia tu parar de vez do meu lado. E acho que é esse o segredo da felicidade. Parar de sonhar tanto. Sonho vive no travesseiro. A única coisa que você pode ter aqui do lado de fora da vida - aqui mesmo, no lado frio, cinza e sem graça das coisas - são os objetivos. Pensa em um, pega uma régua e traça sua reta até ele. Mas traça fundo. Marca bem toda sua linha. Faz um caminho, fundo, seguro. Se for fundo o suficiente, você não vai cair tão facilmente.
Eu quis tanto que você aparecesse assim, do nada, na minha janela. Não tacando pedras no meu vidro, me acordando no meio da noite. Até porque esse lado da vida é tão cinza que a janela não possibilita nem isso. Não precisava nem ser na minha janela. Mas me aparecer assim, no meio da noite. Nem que fosse com meu celular tremendo, de leve. Talvez eu não visse na hora, talvez eu visse só na hora em que eu abrisse meus olhos sem cor definida. Mas eu ia ver. E meu coração subiria até a boca. E voltaria. Um looping, outro, outro. Não pararia tão cedo. Ficaria com aquela sensação estranha, fora do comum sabe? Aquela de que você não sabe o que sente de verdade. Mas eu queria de verdade que você aparecesse. E depois surgisse do nada, no meio do cruzamento dessa avenida tão barulhenta debaixo da minha janela. Para fazer qualquer coisa. Tomar um picolé de limão, um sorvete de cereja dessa doceria tão gostosa que tem aqui perto. Olhar as nuvens, as folhas, as crianças rindo nos balanços do parque. E sorrir com essas besteirinhas. Sorrir porque tudo o que é pequeno, ganha uma importância extrema quando estamos com quem a gente quer estar. Sentar na beira de algum banco de madeira com a tinta branca descascada com jeito de banco-de-praça-de-cidadezinha-sem-nome-nem-nada para dar risada de histórias antigas. Histórias minhas, suas, dos outros. Te falar dos meus planos, ouvir você falar dos seus. Simplesmente ouvir.
Eu ando muito assim, é verdade. Por que? Por quem? Ah, e essa velha história de querer entender as coisas, querer entender os sentimentos. Perda total de tempo. Quando to desse jeito, penso: Para com isso menina! A vida brilha demais lá fora pra você ficar aí sonhando com coisa que não vai vir.   E passa viu. Como passa. Passa rápido. Passa rápido porque eu sou forte. Já passei por cima de algumas coisas, e aguento coisas rindo que as pessoas não aguentariam nem sob efeito de morfina. Porque sou forte. E força não é algo que você adquire quando quer, força é algo que você adquire depois que cai. Mas depois de cair muito. E, baby, como eu caí, como eu caí.. Mas levantei, a vista lá debaixo é muito feia. As coisas ficam longes, longe do seu alcance. E eu não gosto de coisa longe das minhas mãos. Síndrome de possessividade, fazer o que. Isso é coisa de gente fresca, assim como eu. E certamente como você. Afinal, deve ser fresco também.
De qualquer forma, mesmo sendo fresca, banal, chata, irritante, maléfica, ácida e toda essa baboseira de adjetivos que me definem numa composição química extremamente intrigante, eu sinto. E sentir não é errado. Admito que sentir dói. Dói e não é pouco. Mas faz bem. Relaxa que passa.

domingo, 14 de agosto de 2011

Teve hora que tudo parecia que ia dar certo. Mas claro, como sempre, só parecia. Porque as coisas parecem demais. Parecem, parecem, parecem. Só parecem. Quase nada do que parece é. E é essa coisa toda de parecer-é-não-é que faz tudo ser do jeito que é. Fantasioso. A gente se engana o tempo todo achando uma coisa numa outra. Coisas nada a ver uma com a outra.
E sei lá, essa confusão toda, essa mentira toda contada em volta de coisas belas e não belas tiram toda a perfeição do momento. Chega até a ser nojento.
Pensa comigo, você sonha. Sonha como se fosse um idiota. Acreditando em coisas que não são o que parecem ser. E você sonha. Sonha, sonha, sonha. Um belo dum dia azul, antes de uma chuva, claro. Porque até hoje não conheci nenhum dia azul demais que não trouxesse uma chuva em algum momento. E uma chuva daquelas bem cinzas. Sem cor nenhuma naquelas nuvens carregadas de água gelada, com trovões, relâmpagos e raios. Mas chuva assim, ás vezes tem momento bom. Se tu tá numa piscina, debaixo daquele sol maravilhoso, e daquele céu azul cor de lápis de cor de criança, e começa essa chuva. A água gelada do céu se mistura com a água gelada do espaço duro, frio, de concreto cheio d'água no qual você se encontra. Às vezes, chuva cinza pode trazer sorriso. Mas na maior parte das vezes, só te traz uma queda feia do alto de uma beliche. Ou de uma treliche, tanto faz pra mim. A questão é que você cai. Lá está você, sonhando, sonhando com uma droga dum mundo bonito. Só sonho, claro. E no meio dessa sua fantasia estilo final-de-conto-de-fadas-da-disney, aparece a verdade. Crua, fria, cruel, calculista. E pronto. Questão de horas pra você estar trancado dentro do teu quarto escuro. Janelas fechadas, porta fechada, a luz desligada. Afinal, nem toda a luz do mundo traria algum tipo de claridade para esse momento tão dark da sua vida.  E o gato passeia por cima de você, as patas calculando delicadamente onde pisar, onde não pisar. Gatos são criaturas adoráveis. Os animais mais parecidos com os seres humanos que podem existir no mundo. Dão atenção quando querem, não olham na sua cara quando querem. Sâo pessoais e exclusivos. E depois de um tempo caminhando por cima da sua cara amassada e molhada por aquela quantidade ridiculamente enorme de lágrimas que você nunca deveria ter derrubado, ele deita do teu lado.  E nesse momento
de fidelidade felina, você vê porque precisa de momentos quase suicidas como esses.  Nesses momentos cheios de merda e de to-com-uma-vontade-enorme-de-passar-uma-lâmina-no-meu-pulso-esquerdo-e-nunca-mais-abrir-os-olhos-de-novo que as coisas mudam. E o mais legal dessa história toda, é que uma hora ou outra você vai ter que levantar tua bunda da cama, e abrir as cortinas da janelas. Talvez, pouco a pouco. Mas você vai fazer isso. E mesmo se for devagarinho, devagarinho, a luz vai entrar. E mais cedo ou mais tarde. Às vezes mais tarde, às vezes mais cedo. Mas vai passar.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Talvez eu vá para bem longe desse lugarzinho de merda no qual eu te encontrei. Ou talvez eu fique e te force a fazer aquela droga de escolha.
De qualquer forma, juro que te mando lembranças.  Ás vezes, de dor. Ás vezes, de alegria. Não sei. Depende do meu humor no dia em que você voltar a bater na porta fraca da minha memória. E eu não conseguir batê-la na sua cara rabiscada por alguma coisa que deu origem a toda essa porcaria de bola azul e a todo esse bla bla bla insuportável dessa coisa chata chamada ''vida''.
Também não sei se você merece. Ou se não merece. De qualquer forma, isso pouquíssimo me importa agora.
Talvez eu vá sentir falta da sua pele branca. Dos seus cabelos e olhos pretos como a noite. Mas sem estrelas. Uma noite escura, totalmente sem brilho. O brilho desses pequenos pontos de purpurina tirariam a importância do momento. Falta do seu riso aberto e de suas frases irônicas, carregadas de escárnio. Falta de suas mãos no meu corpo, e do seu riso tão próximo ao meu. Falta de te provocar, de você me deixar sem jeito. Falta do meu rosto queimando perto de você.
A merda toda fica pior porque eu não quero te entregar com laço, fita e papel de presente para aquelazinha que combate comigo, por você. Não sou de dar as coisas tão facilmente. Nunca fui, e não pretendo ser.
E eu vou lembrar das suas mãos finas puxando meu rosto, e levando meus lábios até os seus. Das suas mãos alojadas em minha cintura, e na parte externa da minha coxa. Seus dedos na base da minha cintura, deles correndo pelos meus cabelos.
Mas, ando achando o amor, a paixão e etc, uma coisa meio fresca, metida. Você acha que ama alguém. Mas existem tantas outras milhares de pessoas que você nunca vai colocar os olhos. E mesmo assim, você ainda acha que ama aquela primeira.
Daqui algum tempo, quem sabe, eu me sente em uma mesa velha de madeira, com um copo de conhaque na mão. Sem cigarros. Cigarros envenenam a alma e a mente. Uma morte dolorosa, e lenta. Não me parece uma boa maneira de morrer. Embriagado por uma fumaça azulada, tóxica. E no meio desse momento sentada-numa-mesa-de-madeira-com-conhaque-e-sem-cigarros você vai me aparecer na memória, quem sabe. Bem no momento em que o conhaque estiver descendo, amargo e cortante pela minha garganta seca, garganta já sem gosto de corrimão sujo. Vai aparecer em um passe de mágica. Varinha de condão, pó de pirlimpimpim, aparatação, holograma.. Chame do que quiser. Pouco me importa o jeito que você vai chamar essa porcaria toda. E depois disso, vou me levantar e ir a procura de uma droga menos dolorosa na minha cabeça. E aí eu te vejo. Te vejo nos carros que passam, nas lajotas do chão, nas pessoas na rua, dentro das vitrines, no focinho de algum cachorro solto por aí. E descubro que estou completamente louca. Louca de saudades, louca de vontade, louca por você. Nessa altura, já não sei mais onde te encontro. Já não sei se você está sob sete palmos debaixo desse chão sujo que eu piso com meu sapato de sola suja, já tão gasto. Ou se respira essa droga de ar poluído que sai das minhas narinas, e, de alguma forma, entra nas tuas. E eu vou, fingir desistir dessa babaquice toda de um dia te ter de volta.
Acho que sou uma cretina do tipo AAA+. Me engano, te engano, engano todo mundo. Sou puta, sou santa. Não sou nada disso. Sou tudo. E não sou nada. Eu vou enganando tudo e todos aos poucos. Ou vou desenganando, tirando minha máscara perfeita que cobre o que realmente escondo, o que guardo só para mim. O que somente eu sei, segredos que guardo no meu íntimo e louco pensamento. É tudo questão de ponto de vista. Depende do modo de encarar a vida.
Vejo essa droga de situação como um duelo. Desculpe-me, mas meu lado guerreira-espartana-em-alguma-vida-passada anda falando mais alto do que eu posso ignorar.
E ali estou eu. No meio da arena. Um elmo negro cobrindo meu rosto, com um penacho preto sobre ele. A espada, presa ao meu quadril. Escudo na mão esquerda, com uma imagem terrível gravada no bronze, imagem que afugenta muita gente. Seu pior pesadelo em um pedaço de bronze.  Lança na direita. Arco e flechas em minhas costas.
Minha adversária não possui tantas armas quanto eu. E mesmo se possuísse, cada equipamento é uma parte do meu corpo. É parte de mim. De qualquer forma, eu estou pronta para a guerra. Segura das minhas armas e técnicas, segura de que a vitória é minha.
Mas, claro, ter habilidade nesse jogo não conta nada. A decisão não é dentro do campo. Quem morre com uma espada cravada no meio da garganta não sou eu que escolho.  A escolha é tua. E claro, que se eu perder, perderei de cabeça erguida. Aceitarei com honra a lança em minha garganta. Morrerei lutando. Honra máxima para guerreiros espartanos. E eu não desisto do que quero, assim como esses gregos tão metidos a justiceiros. Eu vou a luta. Dou a cara a tapa. Se eu não for atrás do que eu quero, quem irá por mim?
Basta de devaneios estúpidos, comparações idiotas. Você - nem ninguém - vale a minha morte. Mas eu vou a luta, corro atrás do que quero. Com ou sem espada, escudos, lanças, e arcos e flechas. Eu vou luta. Não espero sentada pela chuva, ou pelo sol. Eu corro. No caminho, tropeço em alguma coisa boa, alguma coisa ruim. Talvez eu caia, e arrebente de uma vez por todas a droga da minha cabeça dura. Tudo bem. Uma bandagem aqui, um esparadrapo ali, e vamos em frente. O que há de fazer? É só uma cabeça quebrada.  Eu sei que eu consigo. Você sabe que eu consigo. Todo mundo sabe disso.
Você tem algo diferente para mim. Eu preciso descobrir o que é. Só você e eu. Eu e você. Acontece que eu não sou o tipo de menina que torna essa babaquice toda facinha, facinha. É uma espécie de desafio. Mas minha respiração tem uma dose de ecstasy cada vez que você me toca. Não pretendo enfiar a língua dentro da sua boca e te contar tudo, te entregar essa droga de segredo que guardo debaixo de milhões de chaves. Segredo tão secreto que até eu escondo de mim mesma. Segredo tão segregado, que ninguém imagina. E não vai imaginar. Chega dessa besteira de livro aberto. Coisas abertas demais não são boas. São fracas. E coisas fracas logo partem, racham, são esquecidas dentro de um baú com tantas outras coisas fracas partidas e rachadas.

domingo, 26 de junho de 2011

Os dedos pairando sobre o teclado. Uma tecla acionada. Outra e mais outra. Tudo apagado. Um suspiro doído, cheio de saudades e de lembranças e de medo. 
Meia volta na vida, tudo de novo. Mil dúvidas, mil problemas fúteis e sem importância, mil dores desconhecidas do mundo. Dez dias é o prazo. Dez dias. Sentimentos vem, vão e nenhuma resposta é encontrada. Nenhuma resposta pode ser encontrada em situações como estas. Resta ao mundo apenas levantar a cabeça e admirar o brilho das estrelas, que por enquanto brilham. Mas podem apagar amanhã.