Tardes cinzentas
sempre me fazem refletir sobre a vida. Especialmente essa, uma tarde cinzenta
pós natal, logo depois de uma semana completamente banhada a sol e calor. No meio
dessa tarde, me peguei repensando em antigos amores, antigas dores, antigos desgostos.
Prendendo-me ao passado, tentando reviver memorias mortas. Passei a tarde
inteira encarando a tela do notebook. Tão dura, tão brilhante. Assentia enquanto
a luz fortemente fraca entrava no meu globo ocular e me deixava ainda mais
perturbada. Perturbada por causa da crise de sinusite causada pela mudança
brusca da temperatura, perturbada por causa da tarde sem cor do lado de fora da
janela, perturbada por estar perturbada.
Durante uma
das crises em que quase lanço todo o meu sistema respiratório para o nojento
mundo externo, me deparei com uma conclusão épica. Eu odeio vazio, odeio não ter
com quem sonhar. A sensação de que eu estou caindo, sem ter no que me
segurar... dói, dói no fundo da minha alma. Afinal, eu sinto falta de sonhar
com alguém, odeio esse vazio. Fechar os olhos quando recosto a cabeça no
travesseiro alto, e não ter em quem pensar. Isso dói, isso corta. Rasga a alma,
coração e consciência. Ninguém vive de vento, ninguém é feliz sozinho, até
mesmo a menor das felicidades depende de alguém. Não ter de quem reclamar, quem
abraçar, ou até mesmo com quem brigar, mesmo que seja no mais profundo sono da
noite mais fria. Não ter alguém na sua imaginação, é o pior de todos os
castigos.
Mas olhe em
volta, as pessoas esfriaram, esvaziaram, secaram. Poucos ainda buscam a
felicidade no sorriso de um outro alguém. Em pequenos gestos, as pessoas estão morrendo
com essa falta de contato mínimo. Nos faltam contatos imediatos, de primeiro,
segundo, terceiro, quantos graus existirem! Falta a emoção do olho-no-olho, a sensação
das mãos quentes sobre uma cintura fria. Falta rosto de gente pequena enterrada
no abraço de gente grande. Falta sonho, sobra realidade. Cadê a magia do mundo?
Qual foi a bruxa má que roubou os sorrisos das pessoas? Falta inocência, inconsequência,
impulsividade. Falta sorriso sem motivo, e sobra choro com motivo triste. Choro
que corta o coração, rasga a alma, e dói a cabeça. Corta, rasga, dói por que o
mundo anda cinza, as cores estão morrendo. As pessoas se tornaram independentes
umas das outras. Falta sonho antes de dormir. Falta vontade de sonhar, falta gente para com quem sonhar. Falta gente querendo ser feliz, gente aceitando a felicidade. Falta gente sorrindo.
Nessas tardes cinzas, com a chuva batendo no vidro da janela, o nível de pessoas sorridentes cai de uma forma assustadora, faltam pessoas sonhando, sorrindo, sendo felizes. Nesses dias cinzas, é quando mais preciamos de felicidade. A falta de pessoas assim, nos leva a pequenos atos masoquistas. Reviver o passado, um passado que não deveria ser mais lembrado, nem tirado de dentro do baú da memória. Buscar outros tempos, tempos com pessoas felizes. Um tempo onde eu era feliz pelo simples fato de ter alguém com quem sonhar nas noites frias. Prefiro sofrer com um amor, do que sofrer pela falta dele.
Esse deveria ser o lema da população, todos teríamos amores sempre, ninguém buscaria memórias dolorosas quando algo acontecesse. Ninguém cometeria meu erro: quando machucada, buscar antigos para confirmar se ainda posso machucar. Confirmar até onde vai meu maldito poder sobre as pessoas, a minha maldita maldição de corações partidos.
E, admito, ela vai longe.
